Enfim, o fim…

Cavalos de Paquetá finalmente deixam de puxar carroças e passam a viver em santuários

Por Felipe Magalhães

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Onze animais foram levados a um santuário. (FOTO: Arquivo pessoal)

A primeira imagem para quem chega na Ilha de Paquetá é aquela bem bucólica, das tradicionais charretes ao estilo “Família Real”. Felizmente, não mais. Em vez da exploração de cavalos, os visitantes agora se deparam com 17 carrinhos elétricos. Cada um custou cerca de R$ 61 mil. Eles parecem os de golfe e, à primeira vista, até podem causar estranhamento. Mas os tempos são outros.

A aposentadoria dos animais é fruto de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado entre a Comissão de Proteção e Defesa dos Animais OAB/RJ e a Associação de Charreteiros da Ilha de Paquetá no dia 16 de dezembro do ano passado. Foram precisos dois anos de negociações para que isso acontecesse. A Comissão chegou a pensar em uma campanha nacional para arrecadar fundos e comprar charretes elétricas, mas a Prefeitura do Rio decidiu arcar com os custos dos novos veículos, que começaram a operar no dia 22 de maio. Os animais deixaram o local no dia 19 do mesmo mês, sob hostilidade. Caminhões e uma balsa foram usados no transporte.

A luta é antiga e cheia de capítulos. Se foram necessários dois anos de diálogos, o trabalho dos ativistas vem sendo feito há ainda mais tempo. Moradora de Paquetá há quinze anos, a psicóloga Silvia Mibielli começou a pesquisar sobre tração animal há dez anos, o que a levou a lutar pelo fim das charretes e a denunciar casos de maus-tratos. “A tração animal sob qualquer aspecto é danosa, mesmo que o charreiteiro saiba manejar. Os animais da Ilha viviam em condição miserável”, explica.

A ativista enfatiza que a prisão a uma charrete é contrária à natureza dos equinos, que sofrem com a carga dos passageiros e do meio de locomoção, além da própria. Eles acabam tendo sequelas, quase sempre irreversíveis. Para ela, na tração, o animal acaba sendo tratado como um instrumento de trabalho desprovido de sentimentos. “Esses cavalos têm a companhia permanente do sofrimento. E não podem fugir. Todos, sem exceção, tem a média de vida diminuída. Todos sofrem com patologias físicas e distúrbios comportamentais. Não há aposentadoria, nenhum ganho para esse animal que não escolheu estar ali. Ele é um sentenciado à prisão perpétua.”

Em vez de cavalos, carrinhos elétricos. (VÍDEO: Arquivo pessoal)

PRECARIEDADE DA COCHEIRA

 Além de carregar pessoas e pequenas cargas, o sofrimento também vinha da cocheira. À beira da Praia dos Frades, foi construída em 2003 pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Os cavalos dormiam em chão duro de concreto, dentro de pequenas baias com dois metros quadrados. O esgoto corria direto para o mar, em uma calha no meio do piso. No teto, faltavam telhas.

Após um temporal em 2010 que chegou a levar um animal à morte, a Defesa Civil interditou a área. Apesar disso, o local continuava a ser usado porque os charreteiros alegavam não ter onde colocar os bichos. As despesas mensais com veterinários, medicamentos e alimentação eram de 1.400 reais para cada charreteiro.

Um laudo pericial técnico do Ministério Público chegou a confirmar que os cavalos sofriam maus-tratos. O resultado saiu em maio de 2016.

LEI PROÍBE CHARRETES

Este ano, a lei 7.194/2016 – de autoria do deputado estadual Dionísio Lins (PP) – foi sancionada pelo governador Luiz Fernando Pezão e o uso de animais em atividades de tração foi proibido em todo o estado.

A regra, entretanto, não se aplica a atividades turísticas, o que ocorria tanto na Ilha de Paquetá quanto ainda acontece em locais como Friburgo, Miguel Pereira, Petrópolis, Teresópolis e Paraty, além das praças do Rio de Janeiro. A utilização de carroças nas áreas rurais do estado ainda é permitida, já que são comuns como transporte e sustento.

OUTROS MUNICÍPIOS

A Comissão de Proteção e Defesa dos Animais OAB/RJ pretende levar a iniciativa de acabar com as charretes de turismo para outros municípios, como os citados acima. O primeiro da lista é Petrópolis. Já no dia 31 de maio o presidente da Comissão, Reynaldo Velloso, se reuniu com os charreteiros para uma conversa inicial.

É importante, segundo ele, checar os custos de substituição de cavalos por veículos elétricos. “A informação preliminar é que em Petrópolis são um pouco mais de 40. Temos que ver custos e se o mesmo carro se adapta ao local. Depois que tivermos uma ideia de custos, vou pedir uma audiência com o prefeito”, conta.

A Comissão cogita lançar uma campanha de arrecadação nacional, caso seja necessário. A ideia veio antes, com Paquetá, mas a Prefeitura do Rio pagou pelos carros e não foi necessário. “Os charreteiros são pessoas decentes e precisam ter o ganha-pão, precisam viver. Sempre o entrave maior é o dinheiro”, diz Velloso.

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Na tarde de domingo (22), os carrinhos não estavam em circulação, de acordo com visitantes. (FOTO: Arquivo pessoal)

CONFUSÃO NO PRIMEIRO DOMINGO 

O dia 19 de maio, quinta-feira, foi marcado por muita emoção aos ativistas, mas houve também quem ficasse contra a retirada dos cavalos. De acordo com Velloso, algumas pessoas foram hostis e gritaram para protestar.

No primeiro domingo de operação dos novos veículos, dia 22, eles foram retirados de circulação. Segundo a médica veterinária Juliana Melo, que visitava Paquetá, o motivo foi um protesto contra a implantação dos carrinhos elétricos. É que a ilha localizada na Baía de Guanabara é considerada Área de Proteção do Ambiente Cultural, e o uso de carrinhos contraria – de acordo com quem é contra eles – as normas. “Não tem carrinho aqui. Só tem as bicicletas. O importante é que não têm os cavalos”, disse.

Animais vivem, agora, em santuário. (FOTOS: Arquivo pessoal)

 

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