“É como se ele tivesse a alma perdida”

Ativista conta como era a vida dos cavalos de Paquetá antes da libertação e fala sobre anos de luta

Por Felipe Magalhães

Moradora do local há 15 anos, a psicóloga Silvia Mibielli foi uma das principais pessoas que denunciaram, nos últimos tempos, as condições de precariedade e maus-tratos pelos quais passavam os cavalos da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. Já viu histórias de sofrimento e a dor ser personificada no olhar de muitos animais. Tornou-se ativista, oficialmente, desde 2006.

Em maio deste ano, quando a escravidão deles terminou na Ilha, colheu o resultado de uma  luta de quase dez anos. Estava no santuário para o qual foram levados 11 deles. Para ela, “ver aqueles animais resgatando a alma e o corpo, livres do peso da escravidão e de ter que carregar uma tradição tão arcaica e atrasada que impôs tanto sofrimento, é uma sensação libertadora para eles e para ativistas. O sentimento é de alívio e de missão cumprida”.

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Há dez anos, Silvia Mibielli virou ativista a partir de pesquisas sobre tração animal. (FOTO: Arquivo pessoal)

– O que mais te chocou nesses anos de luta?

Talvez o que tenha visto que mais tenha me chocado foi ganhar consciência de que não enxergava o tamanho do sofrimento dos equinos, que é, em grande parte, silencioso. As pessoas não tem noção de que um animal majestoso, de grande porte, tem uma fragilidade e uma sensibilidade bastante grandes. No caso dos equinos, é uma dor psíquica muito grande, além da física. É quase um castigo e um tormento estar preso em uma charrete, em uma condição em que eles não têm direito à fuga, e naturalmente eles são animais de fuga. É um aprisionamento. É uma forma de opressão, de violência, que contraria totalmente a natureza. Isso me chocou e me deixou surpresa. Passei a enxergar aquele sofrimento que é difícil de observar à primeira vista. Com o tempo, vamos vendo além dos maus-tratos físicos, externos. É um desafio, um acordar que exige mudança: de olhar, de paradigma. É uma grande descoberta.

“O animal passa a ser tratado como uma peça, como instrumento de trabalho desprovido de sentimento”

– Você estudou e observou charreteiros e animais de uma forma quase antropológica, visitando as cocheiras, fazendo anotações, tirando fotos. O que você viu, além desse sofrimento interno dos animais, que ainda não tinha observado?

Quando comecei a mergulhar no assunto, vi que a tração animal provoca uma insensibilidade nos charreteiros. O animal passa a ser tratado como uma peça, como instrumento de trabalho desprovido de sentimento, de direitos. Há um afastamento nessa relação homem, condutor e cavalo. Pelo menos como percebo, não existe um vínculo verdadeiro de respeito e de compreensão com aquele ser que está oprimido e vulnerável, que não merecia estar naquela posição de uma vida aprisionada em função de uma tradição.

– E como era a condição de vida desses animais em Paquetá?

Eles viviam em uma condição bastante miserável, de muita precariedade, confinamento, insalubridade. Isso se tornava banal. É muito triste. Uma das cenas que muito me marcou e que teve um significado extremamente simbólico foi quando vi um cavalo deitado em uma baia minúscula, em cima do cimento. O local estava repleto de fezes e urina acumuladas durante dias. O animal estava deitado e com a cabeça baixa. Aquilo significou, subjetivamente, a desistência. Foi a entrega da vida dele, que vivia sem esperança e sem nenhuma chance de ter uma vida digna e plena como cavalo. É como se ele tivesse a alma perdida, subtraída. Foi uma cena horrorosa.

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Em janeiro de 2012, Silvia viu uma das cenas mais marcantes: a imagem da desistência. (FOTO: Arquivo pessoal)

– Quais são os prejuízos que a atividade de tração pode causar aos cavalos?

Existem os prejuízos mais claros que configuram maus-tratos, como castigos físicos, ausência de alimentação, subnutrição, chicoteamento, tortura, excesso de esforço, trabalho sob sol sem tomar água. Esses são os comuns. Porém, os principais prejuízos são aqueles que não são considerados, como as sequelas. Elas independem da conduta do charreteiro, embora possam ser agravadas. Estão associadas à própria tração. Além do próprio peso, o animal leva o da charrete e o dos passageiros. Acabam adquirindo sequelas em função da exigência dos membros locomotores, por exemplo. A boca do cavalo é uma das regiões mais sensíveis, cheia de terminações nervosas. É bastante castigada. A coluna também, já que há processos inflamatórios que não apresentam sintomas. Isso sem falar no sofrimento psíquico e comportamental.

“Ver aqueles animais resgatando a alma e o corpo, livres do peso da escravidão e de uma tradição tão arcaica, é uma sensação libertadora”

– E que sequelas são essas?

O que me chocou foi que todos eles desenvolvem patologias locomotoras, como artrite, artrose, osteoatrite. Essas sequelas não são tratadas devidamente e poderiam ser evitadas, porque são provocadas pela ação humana. A tração animal já inflige sofrimento. Ao meu ver, é perverso, injusto e cruel. Estamos em pleno século XXI. Tratar um bicho como máquina é um ato totalmente desprovido de ética, de amor, de justiça. Ele sofre muito e tudo isso é considerado normal. Geralmente, se o cavalo de tração for vacinado, vermifugado, tiver abrigo e alimentação já é considerado suficiente. Na nossa concepção de abolicionistas e animalistas, nós não concordamos com nenhuma forma de “coisificação da vida”, de exploração e de escravização para atender a caprichos humanos.

– O que mudou em você após se tornar ativista?

Esses cavalos têm a companhia permanente do sofrimento. E não podem fugir. Todos, sem exceção, tem a média de vida diminuída. Todos sofrem com patologias físicas e distúrbios comportamentais. Não há aposentadoria, nenhum ganho para esse animal que não escolheu estar ali. Ele é um sentenciado à prisão perpétua. Ter a oportunidade de conhecer esse outro lado foi muito bom para mim. Pesquisando sobre as patologias, fui até pessoas que se importam e pesquisam sobre essas consequências da exploração provocada pelo ser humano. Isso inclui carroças, rodeios, equitação e os esportes equestres, os da elite.

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Caminhões apreenderam cavalos, que seguiram a um santuário em local não divulgado por questões de segurança. (FOTO: Arquivo pessoal)

– Os cavalos, agora, estão livres. Como foi a chegada dos animais no santuário?

Eu, a Patricia Fittipaldi – ativista e fundadora do Santuário das Fadas – e a documentarista Flávia Trindade nos dirigimos até o santuário. Chegamos antes dos cavalos e recebemos o caminhão. Quando os animais chegaram na fazenda e começaram a sair um a um, senti uma mistura de emoções: alegria, ansiedade, expectativa. No momento em que os vi correndo e conhecendo o local, começando a pastar, senti uma emoção maravilhosa. Naquele instante, a gente entendeu que valeu a pena. Que todos os anos de lutas, obstáculos, dificuldades e incompreensões, que tudo valeu a pena. Ver aqueles animais resgatando a alma e o corpo, livres do peso da escravidão e de ter que carregar uma tradição tão arcaica e atrasada que impôs tanto sofrimento, foi uma sensação libertadora para eles e para nós ativistas. O sentimento é de alívio e de missão cumprida.

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Cavalos vivem, agora, em santuário. (FOTO: Arquivo pessoal)

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