Crônica de um silêncio anunciado

Por Francielly Baliana

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Olha, hoje eu vou usar um pouco do que você faz pra te contar uma coisa que eu entendi essa semana. Não sei se vou conseguir dizer, porque é algo que ainda estou entendendo conforme o relógio corre. Não sei mesmo se vou conseguir, mas é que eu quero muito te dizer essas coisas. Quem sabe eu consiga olhar pra esses dizeres e descobrir alguma coisa que ainda não sei. Eu cheguei há alguns dias na sua casa e é sobre isso que preciso dizer. Que eu já tinha deixado alguns livros que compramos antes disso tudo aqui, e alguns textos que vínhamos trocando, uns fios de cabelo, umas vontades. Eu fui deixando tudo aqui no seu sofá, na sua cama, no seu chão. Mas eu queria te dizer que agora eu cheguei mesmo aqui. Que agora eu acordo com as gatas me lambendo o cotovelo e me rodeando enquanto trabalho. Não sei, mas me sinto tão bem acompanhada por elas quando você está fora. A gente parece que conversa, ora as três, ora eu e uma, ora eu e outra. Mas tem vezes que eu vejo as duas conversando e não me sinto mais uma intrusa no meio de um diálogo que passei a presenciar há tão pouco tempo. Eu olho pra elas se entendendo, se cheirando, se mordendo e penso no quanto aquilo ali diz. Fico com aquele carinho materno que não sei explicar, olhando e me sentindo amada. É então que você chega, e mesmo eu sabendo que logo eu é quem ficarei o dia todo fora, sinto que quero captar esses seus instantes tal como capto o que vem do olhar das gatas. Esse instante de você abrindo a porta. Quem é você ali? Te ouço entrando e me invade um negócio que nunca senti. Ontem você me disse que sente a velhice vindo por gostar desse sentimento que a gente tem tido de estar em família. Não sei se sinto o mesmo. Mas, eu olho pra você e vejo um contorno tão distinto. E olho de novo pras gatas. E, olha. Não sei mesmo, mas talvez eu esteja tanto aqui, numa medida que nem detalhadamente eu conseguiria te fazer entender, que não paro de ver o quanto seus olhos combinam com o quadro mais bonito da sala, dessa sala desarrumada e intensa. Eu fico por um momento extasiada, talvez perdida. Mas, e eu não sei se já te disse isso, eu gosto desses seus pedaços contrastantes, desses seus olhares pras minhas mãos. Eu gosto quando você aperta elas como se fossem um pedaço remendado de pano, eu gosto da forma como você não as costura, mas desconcerta. Esse seu gosto forte, mas simples, que me prende no abraço. Você também acha que tem um pouco de infância nisso? Você chega e abre a porta e eu te ouço, e parece que é você quem me escuta por dentro. Me diz se não tem um pouco de convite nisso tudo. Me diz se não é uma proposta matildeana aos tantos anos. Então você se vira pra sala enquanto fuma, e o jeito como seus braços param na janela me lembram alguma coisa que eu ainda não sei. Me fala desse som, desse seu ruído engraçado, que você só faz ao dormir, dessa sua voz, que falha quando você diz algo baixo. Me fala alguma coisa que tenha o mesmo som da porta fechada. Me fala com esse teu silêncio, esse teu desespero de não se fazer ouvir. E eu fico sem saber se te peço pra repetir porque não escutei direito ou porque só quero ter sua voz de novo. É, talvez eu tenha chegado nessa casa, nesses dias, nessas gatas, nessa cama pra poder ouvir como é que o silêncio diz de um modo tão íntimo. Pra aprender a me aquietar de vez em quando só pra saber que existem passarinhos na varanda. Talvez, ouvindo esse teu silêncio, eu consiga te ler melhor. E ler o mundo. Penso às vezes que eu não sabia disso tudo. Mas talvez eu sempre soubesse e só não parava pra escutar como é que as coisas falam baixo em alguns momentos. Porque é quase me regando com a água do nosso banho que você vem com uns textos tão possíveis? Que abrem um caminho dentro da gente difícil de encarar sozinho. Mas eu sinto que também te rego, e que a gente se planta num terreno baldio da rua de baixo. E que esse silêncio que você me ensinou me ajuda a abrir um tanto de caminho a mais. E que essa dificuldade de silenciar que eu te ensinei te ajuda a abrir um tanto de outro. E a gente vira via. Se vira. Produzindo toques e palavras que cortam relva já crescida, que soltam umas perguntas que eu nem lembraria de fazer durante a vida. Me olha, se você sente o mesmo. Porque talvez você não saiba, mas eu te desejei primeiro desse meu jeito, desse jeito meu, usando palavras que eu mesma escolhi. É. Talvez eu tenha mesmo te desejado primeiro nas palavras, naquelas que a gente trocou e que eu nem lembro mais. Devo ter te imaginado escrevendo naquele dia, pra você me dizer umas coisas que eu pudesse guardar, e que me fizessem ter mais detalhes sobre você. Mas você vem agora com toda essa literatura silenciosa e eu preciso me deixar dizer de outro jeito. Você vem e eu preciso aprender a não usar as palavras pra dizer o quanto isso me permite. Você vem. E eu vim. Pra usar o que eu menos sabia de mim, pra compreender e tocar, e amar aquilo que eu desconheço que sou capaz. Ficar diante desse seu texto em branco e me escrever. Sem letra sua, sem sua voz. Mas com a minha, que contigo aprendi que pode ser alta, que pode ser baixa, que pode ser nada. A gente vem pra dizer que a gente sempre pode dizer. Em palavras, ou não. Eu olho pra você e pra esse nosso silêncio tão (con)sentido e não sei se o que quero é conceber tudo isso de uma só vez. Sinto que quero ir aos poucos. E em cada instante apagar os resquícios de uma linguagem que eu pensava única. Mas é aí que você senta, mas vê se senta inteiro, senta naquele sofá comigo e me toca os ombros e os cabelos e entra em mim de um jeito que eu não sei realizar. Esse seu mergulho num pedaço quieto do meu corpo descobre sempre umas partes em mim. Quando você me revira, mexe tudo aqui dentro. Porque eu posso não ser do tamanho do Mediterrâneo, pra você se perder num mergulho intenso em mar aberto. Mas eu quero ser contigo um pequeno riacho, um regaço que a gente sabe onde nasce e acompanha a água até ela virar cachoeira, ou, talvez, um riacho grande, de uma outra história, numa outra linguagem, que a gente conta e entende sem precisar sair da gente mesmo, que a gente conta e entende indo com (c)alma.

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