Beleza dói?

Por Ariel Cristina Borges

“Para ficar bonita, você precisa sofrer”: eis aí uma das frases mais ouvidas pelas mulheres, desde sempre. A vontade de sair correndo do salão de beleza quando ele parece mais uma câmara de tortura do que outra coisa é bem comum. Mais comum ainda é a persistência das moças em nome da aparência. E quando o assunto em pauta são os cabelos, muitas já ignoraram até a própria saúde em nome da beleza. Em busca de um resultado final perfeito, elas se submetem a produtos químicos que causam feridas no couro cabeludo, reações alérgicas e queimaduras – além de danificar, também, a autoestima. Felizmente, a redenção chegou e tem nome: transição capilar.

A transição é, basicamente, o processo de deixar os tratamentos químicos para trás e assumir o cabelo natural, seja ondulado, cacheado ou crespo. Explicando assim pode parecer fácil, mas ela não acontece de um dia para o outro. Para deixar a “segurança” do cabelo alisado – e aceito pela sociedade – de lado, a coragem e o preparo psicológico são indispensáveis. “Tem dias em que a gente se olha no espelho e a única coisa em que conseguimos pensar é: ‘o que eu estou fazendo com o meu cabelo?’, mas no fim das contas, vale a pena”, conta Natascha Oliveira, 21 anos.

Natascha antes, durante e depois da transição

Natascha antes, durante e depois da transição (Arquivo pessoal)

Para a estudante de Publicidade da UFRJ, a transição foi quase natural. Depois de cinco anos de progressivas e dois cortes químicos – necessário quando o produto danifica tanto o cabelo a ponto de a única opção para a recuperação ser o corte – ela passou seis meses sem retocar a raiz por falta de disponibilidade, já que estava morando numa república, longe de casa. “Um dia, lavei o cabelo em casa e fiquei com preguiça de escovar porque estava fazendo muito calor. Quando secou, eu vi uns cachinhos na raiz e resolvi deixar crescer para ver no que ia dar. Na verdade, mesmo, tomei coragem quando vi o David Luiz na TV porque foi na época da Copa do Mundo”, brinca Natascha, que não usa química há pouco mais de dois anos.

Já para Francis Braga, 20 anos, a transição foi um pouquinho diferente. “Eu usava guanidina para relaxar e nunca fiz progressiva, então precisava da chapinha para que o cabelo ficasse liso. Todo mundo sempre me falava para deixar natural, mas eu demorei para criar coragem”, conta a estudante de Direito da UFRJ, que usou as trancinhas – ou box braids – como tática para passar pela fase de duas texturas de cabelo da transição. “A última vez em que passei química foi em maio de 2015. Em agosto do mesmo ano coloquei as tranças pela primeira vez e fui cortando as pontas que ainda tinham resíduos químicos nos intervalos”. No total, Francis passou três meses nesse processo.

Tesoura neles!

O momento do big chop – ou grande corte – é, talvez, o “divisor de águas” da transição capilar para todas as meninas. É a partir dele que as moças assumem, de verdade o cabelo natural, geralmente, bem curtinhos. “Eu passei pela transição enrolando as pontas lisas com bigudinhos (uma espécie de bobe de cabelo). Além dos seis meses sem química, passei mais quatro fazendo essa texturização até que um dia, literalmente, acordei com coragem e fui para o salão fazer o big chop”, conta Natascha.

Também é a partir daí que normalmente os comentários das pessoas começam a aparecer. Grande parte deles são elogios sinceros, dignos de ficarem guardados na memória. Mas nem tudo são flores na vida das recém cacheadas. São as pessoas mais próximas que, ao pensar que ajudam, acabam falando demais e Natascha prova essa ideia: “Minha mãe fala quase todo dia que o meu cabelo está muito alto e pergunta se eu não quero pentear para abaixar um pouquinho. Hoje eu falo que não e sigo com o meu dia, mas no início era mais complicado simplesmente não ligar”. Francis completa: “A gente consegue sentir que as pessoas estão incomodadas com a nossa atitude de liberdade. A nossa sociedade, cheia de estereótipos e regras estabelecidas, não está pronta para isso”.

Empoderamento é bom e elas merecem!

Antes da transição começar, é bem comum que as meninas pensem, ponderem, analisem os prós e contras e se preparem psicologicamente pela jornada que as espera. É um processo que muda não só a aparência: também mexe com a autoestima – que, em grande parte dos casos, já era prejudicada.

Francis antes, durante e depois da transição

Francis antes, durante e depois da transição (Arquivo pessoal)

Ao chegar na sala de aula no início da faculdade, Francis era a única aluna negra. E tinha o cabelo alisado. “Percebi que não precisava ser assim. Alisar, para mim, era a única opção. Cheguei ao extremo de pensar que nenhum menino se interessaria por mim com o cabelo natural”, ela desabafa. “Eu não preciso mudar para ser aceita e a transição foi a minha maneira de trazer essa ideia para a vida real. Tenho mais vontade de me arrumar agora, gosto do meu cachinho. Criei carinho por algo que antes só me incomodava”.

Para Natascha, a mudança foi clara: “Meus amigos falam que antes eu andava toda encolhidinha, sem chamar a atenção. Agora não há um lugar em que eu entre e não seja notada porque o cabelo chega antes de mim”, ela brinca, sem ter nenhum problema com a nova situação.

Representatividade importa, sim

Para Natascha, Francis e todas as crespas e cacheadas que cresceram nos anos 90, a busca por uma representação entre personagens de desenho animado, bonecas e os artistas da TV era sempre frustrada. Ainda é comum ver as personagens negras em papeis inferiorizados ou com os cabelos alisados. Para uma geração de meninas que cresceu vendo o “Xou da Xuxa”, foi difícil não se enxergar em nenhuma Paquita.

(Imagem da internet)

Hoje em dia, felizmente, as coisas estão mudando de figura. As meninas que ainda brincam de bonecas agora têm acesso a uma coleção da Barbie com diferentes tipos de corpos, cores de pele e cabelos – inclusive os crespos e cacheados. Já as moças que não são tão jovens assim encontram diferentes tons de bases nas lojas de maquiagem com mais facilidade. “A mudança é maravilhosa, mas algumas marcas ainda precisam começar a enxergar essa inclusão não como um favor, mas como a obrigação que elas têm em atender a todos os tipos de público”, afirma Francis.

A indústria de produtos específicos para os cabelos também se reinventou: “Eles perceberam que nós estamos interessadas em produtos que se adequam aos nossos cabelos e não usamos mais o primeiro creme que achamos na farmácia”, conta Natascha. Para provar seu ponto de vista, a cacheada contou sobre a marca Salon Line, que, com a linha #tôdecachos, trouxe para o mercado os primeiros produtos específicos para os diferentes tipos de cachos, do levemente ondulado ao mais crespo.

Influências reais

A exemplo da Salon Line, outras marcas também têm se reinventado e estão investindo num novo tipo de “propaganda”: a vivência das blogueiras, formadoras de opinião e influenciadoras de 9 entre 10 mulheres que já passaram ou estão passando pela transição. Elas se tornaram embaixadoras e as caras de produtos que, antigamente, tinham sempre comerciais demasiadamente editados, com modelos que pareciam andar ao lado de um ventilador em todos os momentos e cabelos com um brilho que não poderia ser natural.

“Isso é de uma inteligência maravilhosa”, fala Francis. “Eles trocaram o ‘surreal’ por meninas comuns, com quem nos identificamos. Elas também são as pessoas que experimentam os produtos e nos ensinam a melhor forma de usá-los”, ela completa.

Maressa de Sousa faz parte do time das responsáveis por todo suporte online que as “transicionadas” têm. Junto com mais três amigas, a baiana escreve para o blog Cacheia. “Acho que os blogs, vlogs, páginas e grupos no Facebook são uma ferramenta e tanto para colocar as pessoas em comunicação. Mais do que isso: é uma oportunidade para a produção de conhecimento a partir de pessoas com trajetórias bem diversas. Escrever para o Cacheia é um meio de compartilhar um pouquinho da minha experiência, de entrar em contato com outras mulheres e aprender com elas”, conta Maressa, que passou pela transição em 2012.

Elas nasceram prontas

Os cabelos cacheados podem até ser vistos como mais uma moda capilar para boa parte das pessoas, mas, para estas meninas, não. Assumir o cabelo natural, para Maressa, Natascha, Francis e tantas outras fala de liberdade, autoestima e resistência. Fala da quebra de estereótipos, paradigmas e preconceitos – internos e externos. Aos que pensam ser apenas uma tendência fashion, elas mostram que já nasceram prontas para arrasar. Se a beleza está nos olhos de quem vê, elas, finamente, se enxergam belas. E isso não dói porque elas conseguem, verdadeiramente, se reconhecer no reflexo do espelho. Então, não. A beleza não precisa doer.

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