#Desabafos

Assédio, machismo, racismo. A internet tem se tornado um grande meio para denunciar problemas sociais enraizados na cultura nacional.

Por Amanda Perlingeiro

meu-amigo-secreto_1

A proporção atingida por diferentes campanhas que surgiram na internet fizeram com que a rede  passasse a ser vista também como meio de se manifestar, de se posicionar em relação às características da sociedade. Geralmente grupos em prol de alguma minoria estão à frente dessas ações digitais e acabam tendo ótimos resultados com alto índice de alcance e engajamento.

O uso de hashtag tem sido característico desses movimentos. #MeuPrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto e #Seráqueéracismo, se tornaram bem conhecidas pelo público dentro e fora do mundo virtual. O mais interessante é boa parte das vezes é um movimento espontâneo, sem nenhum investimento para divulgação, e mesmo assim tem enorme impacto na sociedade.

Os resultados, por exemplo, da ação #MeuPrimeiroAssédio, foram bastante satisfatórios. Quatro dias após a sua criação, ela já havia sido replicada 82 mil vezes,entre tweets e retweets. Chama atenção, ainda, o dado revelado pela campanha: a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

Devido à quantidade de relatos foi possível chegar a infeliz conclusão de que as mulheres atualmente não têm controle sobre a própria vida sexual. Diversas meninas sofrem ou já sofreram assédio e a maioria dos crimes – cerca de 65% –  são cometidos por conhecidos, pessoas que deveriam ser de confiança. Veja abaixo a nuvem com as principais palavras ditas nos depoimentos da #MeuPrimeiroAssédio:

 

Todo esse boom de denúncias via internet usando hashtags se intensificou no fim de 2015, quando houve a exibição do programa de culinária infantil Masterchef Júnior. Logo no primeiro episódio, o Twitter registrou uma enxurrada de comentários de homens que se sentiam atraídos por uma menina de 12 ano,s participante do programa. Ignorando a idade dela, os usuários faziam publicações de cunho sexual sem qualquer pudor ou medo de represálias.

Os comentários logo repercutiram nas redes sociais gerando um sentimento de revolta em boa parte dos internautas. Este grupo, por sua vez, passou a expressar sua indignação em publicações feitas também na internet.

Tendo em vista todo esse cenário, o grupo feminista @ThinkOlga criou a hashtag #PrimeiroAssédio no dia 21/10/2015, um dia após a exibição do programa Marterchef Júnior.

Através de percepções comportamentais analisadas pelo @ThinkOlga, notou-se um certo constrangimento por parte das meninas que sofreram assédio. Elas tendem a esconder suas histórias porque se sentem culpadas de algum modo. Esse sentimento é consequência do machismo enraizado na cultura, que aponta o dedo para a vítima e encoberta o verdadeiro responsável.

Toda essa culpa, segundo o grupo @ThinkOlga, pode ser superada no momento em que a menina vítima de assédio percebe que não está sozinha.  Assim, ela vai enfim entender que o que aconteceu foi errado. Quanto mais pessoas começarem a falar, mais clareza a vítima vai ter do verdadeiro culpado. Toda essa crença motivou a criação da hashtag #PrimeiroAssédio.

O grupo feminista então deu o exemplo, contando a história de uma de suas apoiadoras. Depois foi feito um convite para que as leitoras fizessem o mesmo, deixando claro que esta não seria uma tarefa fácil, mas muito importante. Desse modo, o @ThinkOlga acredita que a vítima passa a reconhecer sua posição e a encarar a opressão como algo errado, que precisa mudar.

Toda essa campanha serviu para mostrar que vivemos numa cultura de pedofilia. A hashtag foi um meio de abrir os olhos das pessoas para a gravidade de certas “brincadeiras” que parecem tão distantes da pedofilia, do estupro e do assédio, mas que na verdade fazem parte do mesmo pacote.

1PrimeiroAssédio_Exemplo

Isso mostra que quando é dada a chance de falar sobre algo que esteve anos escondido, as pessoas vão lentamente perdendo o medo até conseguirem soltar a voz. Quanto mais relatos foram surgindo, mais pessoas se encorajavam a fazer o mesmo. Uma simples hashtag teve o poder de revelar a quantidade de assédio disfarçado de brincadeira que muitas meninas sofreram quando eram ainda crianças. Este é um cenário que vem se repetindo e está longe de mudar, mas pelo menos agora é possível enxergar a necessidade desta mudança.

Aproximadamente um mês depois de surgir a hashtag #PrimeiroAssédio, uma outra apareceu nas redes sociais, dessa vez para denunciar o machismo, especificamente. No dia 23/11/2015 o perfil “Não me Khalo” composto por um grupo feminista, fez diversos posts tanto no Twitter quanto no Facebook usando a hashtag #MeuAmigoSecreto, que é uma alusão irônica à brincadeira de fim de ano. Dessa forma, a página relatou situações machistas freqüentes na sociedade atualmente.

2MeuAmigoSecreto_Exemplo2

A função dessa hashtag foi de manifestar casos de machismo vividos na sociedade de forma corriqueira. Foi um modo de mostrar que determinas falas e/ou brincadeiras menosprezam o sexo feminino. A ação fez tanto sucesso que a cada minuto havia 80 novas postagens no Twitter com a hashtag.

Essa campanha ocorreu no momento certo, porque dois dias depois de sua criação, no dia 25/11/12 é lembrado o Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres. A hashtag também pode ser vista como forma de protesto contra o projeto de lei 5.069, conhecido como “PL do Aborto” tendo Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como autor.

2MeuAmigoSecreto_Exemplo

Antes do estrondoso sucesso dessa hashtag, uma menina chamada Jéssica Sol fez uma postagem no Facebook usando #MeuAmigoSecreto. Ela foi inspirada pelo post da página Não Me Khalo, que ainda estava começando a ser divulgado.  Houve então muitos comentários no post de Jéssica, um deles de Samantha Su sugerindo a criação de uma página no Facebook com o tema “Meu amigo Secreto”, para denunciar os casos de machismo.

Foi assim que um grupo de meninas criou a página do Facebook Meu Amigo Secreto. Cinco horas após a sua criação, a página já contava com 400 curtidas e na manhã do dia seguinte já tinha mais de mil curtidas e estava sendo comentada em uma matéria do R7. “A gente se dividiu pra pegar as mensagens que chegavam à página e atender as mídias que foram chegando pedindo entrevista”, diz Samantha Su.

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Ela também comentou sobre a hashatg ser uma iniciativa coletiva, fazer parte de um movimento de mulheres que deseja cada vez mais falar sobre a violência e o abuso sofrido.

“Acho que as hashtags são importantes para a gente olhar em volta e ver que não é só conosco. Ver que não precisamos ter vergonha” Samantha Su

Samantha também lembra que o feminismo é o primeiro movimento de esquerda que afirma que o espaço privado/pessoal precisa ter interferência política, porque este conduz os indivíduos a desigualdades sociais. E a hashtag é uma forma de mostrar a importância desse conceito, demonstrar o quão forte é a violência que fica no ambiente privado, o quão forte é a violência contra a mulher.

“Acho que as hashtags são importantes para a gente olhar em volta e ver que não é só conosco. Ver que não precisamos ter vergonha. É um modo também de tornar público e constranger atitudes que nos machucam sempre”, afirma Samantha, ao falar sobre o sentimento feminino ao usar a hashtag #MeuAmigoSecreto

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Porém, nem tudo são flores. Uma parte do público masculino e até mesmo algumas mulheres não receberam muito bem essa hashtag.  Esse grupo criou a #MinhaAmigaSecreta, com o mesmo molde, porém com a intenção de difamar as feministas. Essa hashtag chegou ao Trending Topics do Twitter, mas não fez tanto sucesso quanto sua precursora.

Ao comentar sobre isso, Samantha diz que os grupos desprivilegiados ou desiguais tendem a causar incômodo em pessoas que sentem seus privilégios ameaçados. “Eu acho natural, inclusive. É uma resposta, mas definitivamente muito mais fraca que a força que o movimento feminista toma e tem tomado sempre com a auto-organização de mulheres”, ressalta ela.

Samantha também comenta sobre a importância da empatia, de ver outros grupos, que não necessariamente são os que sofrem machismo, usarem a hashtag #MeuAmigoSecreto para contribuir com a causa. Além disso, homens também lidam com situações abusivas, bem menos que as mulheres, mas isso não deve enfraquecer a luta deles. “As hashtag certamente tomaram pulso pelas mulheres, mas sem essa de prendê-las a algo privado, a gente quer socializar as dores, não queremos tomá-las como nossas únicas”, diz ela.

Além dessas hashtags que tiveram grande aceitação das mulheres por tratarem de sofrimentos majoritariamente femininos, houve outra direcionada pra um diferente grupo, mas ainda assim uma minoria que continua desprivilegiada socialmente. A hashtag #SeráQueÉRacismo surgiu dia 05/12/2015 de forma orgânica, sem nenhuma organização especifica com propulsora.

Essa hashtag foi criada dez dias após a execução de cinco jovens negros no Rio com mais de 100 tiros disparados pela polícia. Nesse mesmo dia, a atriz Sheron Menezzes se tornou mais uma celebridade negra vítima de ataques virtuais, como os que aconteceram com a atriz Taís Araujo e a jornalista Maria Júlia Coutinho.

Essa nova campanha não fez tanto sucesso quanto as anteriores, mas ainda assim foi bastante importante. A intenção dela é trazer à tona os comportamentos racistas que passam despercebidos no dia-a-dia. A hashtag denuncia certos comentários e brincadeiras preconceituosos que são transformados em situações comuns.

3SeráQueÉRacismo_Exemplo

Diferente das demais, a #SeráQueÉRacismo não teve um boom, mas também não acabou. Ela continua sendo usada no Twitter e no Facebook em menor quantidade.

Quando perguntada sobre o futuro dessas hashtags, Samantha Su diz que novas campanhas tendem a surgir: “A internet tem dessas coisas, tem picos e apaziguamentos. Vamos ver o que vai surgir esse ano, feliz ou infelizmente, renovação é o que não falta”.

 

Matérias relacionadas:

http://thinkolga.com/2015/10/26/hashtag-transformacao-82-mil-tweets-sobre-o-primeiroassedio/

https://www.facebook.com/meuamigosecretoe/

http://revistagalileu.globo.com/blogs/buzz/noticia/2015/11/20-relatos-da-hashtag-meuamigosecreto-que-precisam-ser-lidos.html

http://extra.globo.com/noticias/brasil/apos-meuamigosecreto-contra-machismo-internautas-usam-hashtag-seraqueeracismo-para-relatar-casos-de-racismo-18237054.html#ixzz3wr9ErEEl

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