Governador Valadares: reflexos de um rio morto

Crime ambiental ocorrido no município de Mariana (MG) transforma Rio Doce em lama e já prejudica vida de moradores de Governador Valadares e outras cidades do Sudeste

Por Camilla Alcântara

A Ibituruna e o Rio Doce. Foto de Antônio Cota

A Ibituruna e o Rio Doce. Foto de Antônio Cota

“Duas semanas atrás eu vim aqui pescar e conseguia ver os peixes no fundo da água, era a coisa mais linda, para agora o rio estar desse jeito… É uma falta de responsabilidade muito grande, porque isso podia ter sido prevenido. A pesca acabou.” O lamento é da lavadeira Andreia Januário de Souza, de 33 anos, moradora de Governador Valadares, cuja família pratica a pesca para consumo. Ela é apenas mais um caso de habitante da cidade que agora sofre com os reflexos do crime ambiental ocorrido no município de Mariana, este mês.

O rompimento de duas barragens de rejeitos da Samarco, uma união da Vale e da BHP Billiton, mineradora australiana, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, provocou no dia 5 de novembro de 2015 uma enxurrada de lama sobre a população local. A catástrofe atingiu grandes proporções ao deixar mortos, feridos, desaparecidos e desabrigados. Diversas cidades de Minas Gerais foram afetadas e municípios do Espírito Santo estão em estado de alerta. Isso tudo porque a lama da barragem de dejetos do Fundão, ao se misturar com a de Santarém, que é de água, provocou a enxurrada, que com velocidade, encontrou o caminho da bacia hidrográfica do Rio Doce e tomou conta de sua extensão. Isso acabou prejudicando diretamente as povoações cujo abastecimento de água provém diretamente dele, como Alpercata, Galileia, Resplendor, Tumiritinga e o distrito de Perpétuo Socorro, em Belo Oriente (MG), além de municípios como Linhares, Colatina e Baixo Gandú, no Espírito Santo.

Aos pés da Ibituruna, Governador Valadares, a maior cidade do leste mineiro banhada pelo Rio Doce, é uma das mais afetadas pelos reflexos do desastre e encontra-se em estado de calamidade pública. A captação de água do rio foi interrompida e a água que supria a cidade transformou-se em um lamaçal turvo e fétido que após correr uma vasta extensão de território no sudeste irá desaguar no Espírito Santo.

Duas semanas atrás eu vim aqui pescar e conseguia ver os peixes no fundo da água, era a coisa mais linda, para agora o rio estar desse jeito
Andreia Januario de Souza, lavadeira

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Tainara da Silva. “O Rio Doce morreu”

É difícil encontrar um cidadão que não teve sua rotina alterada pela calamidade. Tainara Alaíde da Silva, vendedora autônoma de 22 anos, mora no bairro Carapina, onde são poucos os reservatórios em caixas d’água. Ela diz que conseguiu guardar água limpa em alguns baldes, mas precisa economizar ao máximo. “Toda hora é uma notícia diferente, ninguém sabe exatamente o que fazer. Estamos apenas esperando que as autoridades nos ajudem. O rio Doce já morreu, não tem mais rio e não chove na cidade há muito tempo. Nosso único recurso está sendo orar”, desabafa Alaíde.

A população valadarense, perplexa, discute se o que de fato ocorreu foi um acidente ou um crime ambiental ocasionado pelo descaso da empresa Samarco e fruto de falta de planejamento. Um laudo técnico de 2013 emitido pelo Instituto Prístino, elaborado a pedido do Ministério Público de Minas Gerais, já alertava para os riscos de rompimento das barragens na região de Germano. O Nome da BHP Billiton também está envolvido em uma tragédia semelhante na Papua-Nova Guiné. A partir de estudos da Universidade de São Paulo (USP) surgiu a possibilidade de abalos sísmicos próximos à região poderem ter tido relação com a tragédia. Contudo, nada ainda foi concluído e a mineradora não deu um parecer sobre suas possíveis causas, tampouco forneceu informações sobre o andamento das apurações.

Em entrevista coletiva concedida no dia 11 de novembro, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), falou sobre o ocorrido: “O governo do Estado, neste momento, está fazendo o que é emergencial. A questão da Samarco está sendo tratada pelo judiciário”. O governador também comentou sobre a participação da mineradora na resolução do caso: “Diremos à Samarco que eles têm de se empenhar mais: um primeiro plano emergencial já não é suficiente para resolvermos o problema.” A devida punição só poderá ocorrer depois do fim das apurações, que continuam em aberto. Como medida de amenização da solução, ele aponta a abertura das comportas de água das usinas e Baguari para que a água, com velocidade, venha “lavar” a lama.

Ainda segundo o governador, a turbidez da água (que é o que causa a aparência marrom-avermelhada no rio) está caindo, o que aumenta as esperanças de recuperação do Rio Doce. Entretanto, não é o que se observa abaixo da ponte da Ilha dos Araújos, onde sob a água densa e lamacenta boiam peixes mortos, reflexos da agressão à  fauna; o rio exala um odor forte e desagradável que incomoda quem vive por perto.

A lama que corta a cidade. Foto de Antônio Cota

A lama que corta a cidade. Foto de Antônio Cota

O coordenador do Sindicato de Pescadores do Leste de Minas, Rodolfo Zulske, questiona como ficará a situação da fauna e da flora ribeirinhas, mesmo após os problemas de água serem resolvidos na cidade. “Depois do estrago da falta de água, quem vai bancar o rio? Por mais que a Samarco seja multada, a multa não vira meio ambiente. Mesmo com dinheiro, se nada for feito, como fica a natureza? Como ficam os pescadores?” Zulske estima que até março, mais de 500 pescadores no leste mineiro ficarão desempregados – em todo o leito do rio, o número ultrapassa dois mil. Em resposta, o governador Pimentel diz que é necessário rever a legislação ambiental do estado de Minas.

Segundo o major da Polícia Militar, Arnaldo Affonso, das medidas emergenciais que já foram tomadas, estão a exigência à empresa responsável pelas barragens rompidas de caminhões pipa para abastecer a cidade e o estudo de possibilidades de perfuração de poços artesianos e captação de água do rio Suaçuí. Sobre a possibilidade de rompimento de uma terceira barragem de Germano, localizada em Bento Rodrigues, Arnaldo declarou ser mínima a chance, embora a mesma apresente rachaduras. Em relação à toxidade da água, ele afirma que ela não contém produtos químicos perigosos, como os provenientes dos detritos de ouro e diamante, por exemplo, e que não causará danos à população. Contudo, estudos da SAAE (Serviço de Água e Esgoto) de Valadares apontaram um grau de ferro demasiadamente superior ao permitido na água. Não se sabe quando o rio poderá voltar a ser tratado para o consumo.

Depois do estrago da falta de água, quem vai bancar o rio? Por mais que a Samarco seja multada, a multa não vira meio ambiente. Mesmo com dinheiro, se nada for feito, como fica a natureza? Como ficam os pescadores?
Rodolfo Zulske, coordenador do Sindicato de Pescadores do Leste de Minas

As consequências de um rio morto para quem conta(va) com ele para viver

Andreia depende diretamente da água para trabalhar. “Sou lavadeira e tenho orgulho da minha profissão, mas agora estou sem trabalho, sem dinheiro. Ontem estive lavando roupa na mão pra economizar água.” Em relação aos peixes, ela comenta que a lama os dizimou na época da piracema, ou seja, de reprodução, o que dificultará a recuperação da fauna. “Dourado é um peixe que é uma raridade de se achar e agora nós encontramos, só que mortos pelas margens do rio. Nem o Cascudo, que é o peixe mais resistente, aguentou”, lamenta Andreia.

Os peixes mortos à beira do rio. Foto de Antônio Cota

Os peixes mortos à beira do rio. Foto de Antônio Cota

Até o momento, parte dos moradores de Valadares vive com a água que resta das caixas. Como a cidade ficou sobre aviso, alguns conseguiram armazená-la em baldes e tonéis. Entretanto, não se sabe por quanto tempo essa água irá durar, nem quando a água dos caminhões pipa, disponibilizada pela Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) vinda das localidades do Vale do Aço, como Ipatinga e Frei Inocêncio, irá chegar. Também não se sabe se essa quantidade será suficiente para abastecer a todas as moradias. No bairro onde Andreia mora, não há caixas d’água ou poços: o encanamento vem direto do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto). “Na minha rua, uma mãe com um filho de dois meses não tem água nem para dar banho na criança”, diz a moradora. O que está causando tanto desespero e sofrimento não é simplesmente uma seca recorrente, mas sim uma tragédia de extensa magnitude que carece de atenção.

Com o abastecimento interrompido, a cidade para. Estabelecimentos comerciais, restaurantes, hotéis, dentre outros, fecharam as portas por tempo indeterminado. Colégios e Faculdades suspenderam as aulas até que estejam em condições de voltar a funcionar. A estudante de direito Carolina Muniz de Britto, de 21 anos, planeja ir a Belo Horizonte: “muita gente deve acabar indo para a casa de parentes em outras cidades. A Universidade Federal de Juiz de Fora aqui em Governador Valadares funciona no mesmo campus da Univale. Não há como ter aula e não é lucro ficar aqui sem água também”, explica a estudante.

Fila para comprar água em Governador Valadares. Foto: divulgação

Fila para comprar água em Governador Valadares. Foto: divulgação

Nem água mineral se encontra na cidade. Os galões cheios, quando chegam nos estabelecimentos, acabam entre uma e duas horas. Além de escassos, estão custando caro: “O mais barato que encontramos foi de R$ 25,00”, disse Tainara da Silva”. Quem pode, compra galões em grande enormes para estocar em casa – quem não pode, acaba ficando sem. O pedido da prefeitura é para que a população use o mínimo possível dessa preciosa água que chega ao município.

Manifestações

Ocorreu nesta quarta-feira, 11, uma manifestação na Praça Júlio Soares, na Ilha dos Araújos, para discutir as reivindicações da população e apresentar propostas para uma resolução mais rápida possível das necessidades dos cidadãos. O administrador Nélio Pires, de 51 anos, explica suas intenções do manifesto: “queremos fazer um pedido de socorro para o mundo inteiro, através da internet. Temos 270.000 pessoas em Valadares que vão morrer de sede.” Na pauta de propostas e reivindicações estão o investimento na captação de água dos rios Suaçuí grande e Suaçuí pequeno, fornecimento de água potável que alcance toda a população e debate sobre os projetos de recuperação do rio Doce, da nascente à fossa.

Manifestação na praça da Ilha dos Araújos

Manifestação na praça da Ilha dos Araújos

Como a Vale (empresa que detém 50% da Samarco) ainda não se pronunciou sobre a conjuntura de Governador Valadares, os manifestantes resolveram chamar a atenção da empresa, interditando nesta quinta, 12, a linha férrea com pneus. “Precisamos ser vistos”, acrescenta Nélio.

Não são apenas números, tampouco uma notícia de trinta segundos no jornal ou uma nota no rodapé: são pessoas e até a própria natureza que necessitam de ajuda, pois será impossível que se recuperem sozinhas. Mesmo após o problema de abastecimento de água ser resolvido, a população de Governador Valadares e outros municípios afetados em menor ou até maior escala sofrerão com as consequências do desastre, como uma fauna e flora deficientes, por exemplo. A população de Minas Gerais, principalmente aqueles que forem apontados como diretamente responsáveis pelo ocorrido após a apuração dos fatos, tem o compromisso de revitalização de todo um bioma que dificilmente será o mesmo. Também é de responsabilidade de todos cuidar para que outras vidas não se percam ou sejam prejudicadas por um rio que se antes era Doce, agora deixa um gosto amargo para os que dependem dele.

O rio, denso e de tom marrom-avermelhado. Foto: via Whatsapp

O rio, denso e de tom marrom-avermelhado. Foto: via Whatsapp

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3 Respostas para “Governador Valadares: reflexos de um rio morto

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