Tudo cabe no Slam Poetry: a palavra e o corpo unidos na performance

por Clara Monerat, Gabriela Moscardini e Victoria Macdonogh

No meio da multidão, o megafone gritava em palavras de ordem a poesia. Gritos roucos, finos, altos, baixos. Direto da garganta saía um som que vinha do coração. Junho de 2013 não marcou somente a história dos movimentos sociais: a palavra voltou para rua, lugar de onde jamais deveria ter saído. Ocupar a cidade era essencial e a energia vital da poesia veio na forma do Slam Poetry.

O Slam Poetry é novo no Brasil. Surgido nos Estados Unidos, no final da década de 1980, o Poetry Slam consiste em uma competição de poesia falada.  Tem como proposta uma nova forma de fazer poesia, com uma preocupação com a voz e a performance. No Slam, o corpo assume o protagonismo, se transforma em poesia e declama, com mãos, braços e pernas, o que o papel não é capaz de dizer.  Num tête-à-tête corporal, uma dupla se desafia numa batalha e a palavra que soa como uma tapa na cara ou uma carícia apaixonada não somente soa: o é.

CORPO EM MOVIMENTO | SLAM POETRY NO BRASIL

Assim como qualquer competição, o Slam Poetry tem suas regras. Por exemplo, todas as poesias precisam ser autorais. Algumas batalhas impõem tempo máximo, outras não impõem tempo algum. É o caso do Tagarela, nomeado como o “maior slam do mundo” justamente por não limitar o tempo de declamação. O Tagarela nasceu junto com a efervescência das manifestações de junho de 2013. Paulo Emílio é professor e pesquisa sobre corporalidade. Ele e outros poetas e admiradores da performance buscavam o lugar da palavra do meio da rua. Literalmente. De 2013 pra cá, mais de 200 pessoas já se enfrentaram nas batalhas que acontecem mensalmente em diversos pontos da cidade: Feira de Tradições Nordestinas de São Cristóvão, praças do centro do Rio de Janeiro e cidades do interior fluminense.

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Paulo Emílio Azevedo conta que o Tagarela vai virar documentário e peça de musical.

Os jurados levam em consideração não apenas o poema, mas também todos os aspectos da performance do artista. Paulo Emílio Azevedo é um dos organizadores do “maior slam do mundo”, o Tagarela. Ele explica: é o maior porque o Slam, assim como qualquer competição, tem suas regras, e, no caso do Tagarela, a regra é não ter limite de tempo para declamar, diferente da maioria dos Slams – inclusive há, ele lembra, o menor slam do mundo: uma competição em que os batalhadores têm segundos para performatizar a poesia.

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Empate: as duas poetas levam para a Baixada o encanto da palavra e do corpo

O Tagarela também organiza o Palavra Projétil, uma oficina de formação em poesia falada. Foi através dela que Luiza Bastos, uma jovem estudante do ensino médio, conheceu essa nova forma de fazer poesia. Moradora da Baixada, ela resolveu mergulhar no universo da palavra por influência de Ane Alves, artista plástica e sua madrasta. O interesse pela poesia sempre esteve presente na vida de Luiza, mas nem sempre ela teve coragem de expor seus trabalhos. “Eu escrevia, mas eu não postava nem no Facebook. Eu tinha vergonha. E aí a Ane começou a me incentivar e a oficina também te faz se sentir mais livre para conseguir expor o teu poema”, explica Luiza. Não foi muito diferente com Eliane Gonçalves, vizinha e parceira de saraus de Luiza. Mulher da Baixada, como ela mesma gosta de dizer, Eliane também descobriu no Slam uma maneira de libertar e empoderar sua voz.

mulher da baixada

França, Estados Unidos, Macedônia, Madagascar, Gabão, Escócia: embora seja uma modalidade recente no Brasil, o Slam já está consolidado em alguns países. Todo ano a França sedia a grande copa de Slam, e recebe poetas de diversos lugares do mundo. O mineiro João Paiva, de 24 anos, foi o representante brasileiro nesta última edição. Professor em Belo Horizonte, João venceu o campeonato nacional do Brasil e viajou para Paris para a competição que já está na sua 9ª edição. “Foi uma experiência única. Conheci pessoas de lugares que eu nem sabia que existia, e que tem poesia. Onde há vida, há poesia! São várias realidades diferentes, realidades que se refletem nas poesias e performances dessas pessoas.”.

João Paiva em performance de "Torre de Babel", no Grand Slam Coupe 2015, em Paris.

João Paiva em performance de “Torre de Babel”, no Grand Slam Coupe 2015, em Paris.

Retratar a própria realidade pode muitas vezes ser um ato político.  Por isso, é frequente no Slam Poetry temas de denúncia social. “O Slam é uma modalidade que está ligada á poesia marginal, uma poesia urbana, de periferia, e essa poesia naturalmente já tem essa característica de denúncia social”, afirma João. Para Luiza, as suas experiências enquanto mulher são temas pertinentes à sua poesia. “A gente também tá querendo soltar a nossa voz, mostrar a capacidade que a gente tem. E o Slam tem essa coisa do grito, do megafone”, disse Luiza.

Sexualidade, gênero, luta de classes, racismo, violência: a arte no slam não é parnasiana, não existe torre de marfim. A poesia tem compromisso. E o grito que acompanha o Slam não silencia: ele dá a voz. É com voz que quem por muito tempo foi silenciado hoje fala, em praças públicas aqui ou em Paris, sobre combate de opressões.

No corpo há voz

No Slam Poetry, não basta a palavra por si só. A performance é essencial, e o corpo também fala e produz signos e significados. Através da língua de sinais, surdos podem se comunicar e, mais do que isso, se expressar. A Libra (Língua Brasileira de Sinais) é usada pela maior parte dos surdos brasileiros e, assim como as diversas línguas naturais e humanas existentes, ela é composta por níveis linguísticos. Da mesma forma que nas línguas orais-auditivas existem palavras, nas línguas de sinais também existem itens lexicais, que recebem o nome de sinais. Assim como em qualquer língua, a língua de sinais possui regionalismos e variações ao redor do mundo.

Para Leonardo Castilho, educador, produtor de acessibilidade a surdos, produzir poesia é um processo natural. “Acho que fazer poesia é algo presente em todas as línguas, vem com o desejo de libertar a língua, alargá-la – seja através de palavras, seja através de sinais”, afirmou. Ele faz parte do grupo Corporsinalizante, de São Paulo, uma iniciativa que pesquisa e produz arte aberto a surdos e ouvintes que se interessam pela Linguagem Brasileira de Sinais.

Uma das atividades desse coletivo é o Slam do Corpo. A ideia é unir poetas surdos e ouvintes para criar poesias. Embora exista no mundo um movimento forte de poesia, de saraus, Slams e outras modalidades, a acessibilidade a esse universo não era estendida para poetas surdos. Leonardo conta que o processo foi novo: “Começar a explorar a performatividade da língua, sua visualidade, espacialidade, produzir poesias e fazê-las circular nestes espaços majoritariamente orais. Isso foi novo pra gente”. Outro desafio foi juntar as duas línguas, unindo poetas surdos e ouvintes na hora da performance. “Assim, não temos mais uma língua dominando a outra”, explica Leonardo.

 

Como nos outros Slams, os poetas falam sobre temas diversos. “Muitos poemas falam sobre ser surdo, sobre a potência desta existência, deste corpo, desta língua e sobre a luta dos surdos por seus direitos. Mas também tem poetas, tanto surdos quanto ouvintes, que falam de amor, de ódio, de outras coisas”. Para Leonardo, para Paulo Emílio, para Luiza, para Eliane, para João e para tantos poetas: da política ao amor, tudo cabe no Slam.

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