70 anos, vários Chicos

Por Beatriz Jorge, Carolina Viana e Leonardo Moura


chico buarque (20)O ano era 1944 e a cidade, o Rio de Janeiro. Nascia Francisco Buarque de Holanda, filho do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim, o quarto irmão dos sete que formariam a família. Dois anos depois, o pai é nomeado diretor do Museu do Ipiranga e mudam-se todos para São Paulo. Em 1953, as malas são arrumadas novamente: o destino agora é a Itália, onde o historiador começaria a lecionar na Universidade de Roma. A viagem durou pouco e, um ano depois, Francisco e sua família voltaram para a Brasil.

O ano era 1944 e a cidade, o Rio de Janeiro. Nascia Chico Buarque, um dos mais renomados compositores da Música Popular Brasileira. Nascia Chico Buarque, um escritor de obras premiadas. Nascia também Julinho da Adelaide, que anos mais tarde, burlou a censura como ninguém. Assim começa a história do homem que contou – e encantou – tantas outras: de Beatriz à Carolina, de Bárbara à Luísa, são histórias de um país inteiro, construídas tijolo com tijolo, num desenho mágico. Deus lhe pague.

Quando partiu para a Itália pela primeira vez – mais tarde, voltaria para lá -, conta-se que deixou um bilhete para avó dizendo: “Vovó, você está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades”. Pois é, seu moço, na sua meninice, ele um dia disse que chegava lá. E chegou. Em 1959, compôs Canção dos Olhos e, desde então, assina músicas que emocionam fãs de todas as idades.

Eu cultivo rosas e rimas

Um desses adoradores é a jornalista Aline Luz, de 27 anos. “O Chico entrou na minha vida sem que eu me desse conta. ‘Entrou feito um posseiro no meu coração’. Acho que me senti integralmente fã quando fui ao seu show pela primeira vez, me arrepiava da cabeça aos pés. Chorei, sorri. Me marcou de verdade”, emociona-se. Para Aline, Chico está presente desde blocos de carnavais, quando multidões entonam Vai Passar, fazendo cada paralelepípedo se arrepiar, até dias mais cinzentos, quando suas canções aparecem nas rádios.

Silvio Renato, de 49 anos, por sua vez, conta que a simpatia pelas músicas do compositor começou cedo. “Eu devia ter entre 12 e 13 anos quando ouvi Mulheres de Atenas pela primeira vez. A letra me marcou muito e, mesmo criança, comecei a prestar atenção nele.”, relembra. O professor de Literatura Portuguesa já foi a dois shows do artista, um “há quase trinta anos”, no já extinto Canecão, outro em fevereiro de 2012, quando levou a família inteira à casa de shows Vivo Rio.

Enquanto aquelas mulheres de Atenas encantaram Silvio, as coisas de amor d’ A Banda ainda estão na memória de Ivani Fialho, de 73 anos. A aposentada foi uma das pessoas que despediu-se da dor para ver a banda passar, em 1966, no Festival da Música Popular Brasileira da TV Record. “A primeira vez que ouvi seu nome foi no Festival. Eu nunca fui muito ligada à música, mas essa, em especial, mexeu comigo de uma maneira diferente: era muito viva”, recorda. A relação de Chico Buarque com a censura durante a Ditadura Militar também faz parte do imaginário de Ivani. “Naquela época, a gente ouvia dizer que os artistas mais engajados tinham muitos problemas com os militares e o Chico, sem dúvida, era um deles”.

Afasta de mim esse cálice

Chico Buarque muitas vezes bebeu a bebida amarga da Ditadura. Em 1969, chegou a se auto exilar na Itália, depois de ter sido detido para depor e de atores e técnicos da peça Roda Viva, de sua autoria, terem sido espancados durante uma invasão do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Além disso, muitas de suas canções foram censuradas, a exemplo de Cálice. Ainda assim, sua apresentação durante o show Phono 73, foi homérica.

Chico não desistiu: como as músicas eram proibidas apenas por levarem sua assinatura, nasceu “Julinho da Adelaide”, codinome usado por ele na década de 70 para burlar os censores. Composições como “Acorda, Amor”, “Jorge Maravilha” e “Milagre Brasileiro” levaram o nome e não tiveram maiores problemas para serem liberadas. Julinho até deu entrevista para o Jornal Última Hora, na qual falou sobre sua carreira em ascensão e declarou: “O Chico Buarque quer aparecer às minhas custas”. Eis o malandro na praça outra vez.

Outro diferencial das suas canções de protesto – sejam de Buarque ou de Adelaide – é o ritmo, como explica o jornalista e professor João Batista Abreu: “Na época, o ritmo da música de protesto era toada, como em Carcará, o que era muito marcado. O Chico traz uma coisa diferente, ele faz uma música de crítica na forma de samba, o que não era comum. O samba era visto como música de preto e pobre, não de contestação ao regime”. Nem mesmo aqueles que compunham de maneira engajada perceberam inicialmente as intenções de Chico. “Em um primeiro momento, ele é visto por esse segmento [músicos] politizado como um cara quase reacionário, suas músicas chegaram a ser vaiadas. Ele foi conquistando seu espaço aos poucos”, explica.

Dessas mulheres que só dizem sim

Não é só de protesto, porém, que se faz um artista. Ao menos, um artista como Chico Buarque. Seu sucesso com as mulheres, por exemplo, é inegável e não são seus olhos verdes os únicos responsáveis por isso: a maneira sensível e compreensiva com a qual lida com a alma feminina, também contribui. “Ele consegue entrar nas nossas mentes e traduzir todos os sentimentos que uma mulher há de passar na vida”, analisa Aline Luz.

Essa facilidade se dá inclusive quando Chico assume o eu-lírico feminino em suas composições. Segundo a linguista Ana Paula Barros, ele o faz perfeitamente: “Linguisticamente, percebemos uma voz feminina ou uma marcação de gênero mesmo, como em ‘para mostrar que ainda sou tua’, em Atrás da Porta”. Para ela, a idealização da mulher é presente em muitas de suas canções, mas não em todas. “Em função das condições de produção de determinadas épocas, a imagem da mulher deixa de inspirar romantismo e dá espaço à submissão, por exemplo”, avalia.

O meu amor

Trecho da música “O meu amor”

Me leve apenas para andar por aí

O rapaz da música e do teatro também entrou para a Literatura. Estorvo, Budapeste e Leite Derramado lhe renderam três Prêmios Jabuti, Chapeuzinho Amarelo o aproximou do universo infantil e, em novembro deste ano, ele lançou “O irmão alemão”. Essas e tantas outras obras fizeram dele um artista ainda mais multidisciplinar, de infinitas possibilidades e talentos. O moço também continua engajado: durante as últimas eleições, declarou seu apoio à candidata petista, Dilma Roussef, o que causou bastante alvoroço. Já se passaram mais de cinquenta anos desde o início de sua carreira, que ainda inspira muitos artistas. Chico parece ser o que não tem cansaço, mas nunca terá. O que não tem limite.

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