São Tomé e Príncipe: cultura no plural

Por Augusto Mendes, Bianca Alcaraz e Claudio Barbosa

Paisagem

“Entardecer… capim nas costas
do negro reluzente
a caminho do terreiro.
Papagaios cinzentos
explodem na crista das palmeiras
e entrecruzam-se no sonho da minha infância,
na porcelana azulada das ostras.
Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar
com os seus frutos dourados e duros
como pedras oclusas
oscilando no ventre do tornado,
sulcando o céu com o seu penacho
doido.
No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.
E uma figura de linhas agrestes
se apodera do tempo e da palavra”. – Manuela Margarido

As palavras foram a forma encontrada pela poetisa Manuela Margarido para descrever seu país: São Tomé e Príncipe. Mas esta não é a única alternativa possível. Rádio; TV e Audiovisual; Publicidade, Propaganda e Marketing; Internet e Mediação Cultural são as opções oferecidas pelas missões realizadas por professores, técnicos e estudantes da UFF do “Projeto São Tomé e Príncipe Plural: Ações Programáticas em Comunicação e Cultura”. A iniciativa é fruto de um intercâmbio entre a Universidade Federal Fluminense e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores.

Desenvolvido pelo Instituto de Artes e Comunicação Social, o projeto busca estreitar laços culturais entre o Brasil e a antiga colônia portuguesa. A proposta é estimular a produção de conteúdo nas cinco áreas distintas, mas que trabalham de forma articulada. São desenvolvidas atividades de capacitação de gestores, funcionários e técnicos da Rádio Nacional e da TV estatal de São Tomé. Além disso, o objetivo é que a comunidade local se envolva nesta produção e seja capacitada para abastecer o portal que reúne todo o trabalho desenvolvido pelo projeto.

Embora São Tomé e Príncipe tenha em comum com o Brasil o fato de também ter sido colonizado por Portugal, o arquipélago apresenta diferenças marcantes em relação à cultura brasileira. É o que explica o professor de fotografia Rômulo Correa, que foi ao país pela primeira vez em maio deste ano e retornou no fim de outubro para dar continuidade à capacitação “Fotografia como Expressão, Documentação e Memória”, que busca estimular o povo de São Tomé a registrar sua própria realidade:

“O povo de São Tomé e Príncipe é um povo que foi colonizado pelos portugueses assim como o Brasil, mas, depois de certo tempo, principalmente com a convivência, percebi que existe um Atlântico entre nós. Somos latinos e eles são africanos, vivo em uma metrópole e eles vivem em uma ilha com poucos habitantes. A questão cultural é outra, e a questão da informação é outra também. É um país muito jovem, pois deixou de ser colônia a partir de 1970. E por ser  jovem, o país ainda está se descobrindo”, explica o fotógrafo.

As diferenças são muitas, mas as semelhanças também. E é justamente esse contraste que o “Projeto São Tomé e Príncipe Plural” pretende explorar. Além de contribuir com a formação de profissionais do arquipélago, a proposta do trabalho é capacitar os estudantes, professores e técnicos da própria UFF, por meio da troca de experiências e de visões de mundo distintas.

Os primeiros são-tomenses que tiveram a oportunidade de realizar esse intercâmbio de culturas através de uma visita ao Brasil, em outubro deste ano, foram os contadores de histórias Grav Zawa e Gweva. A chegada do projeto foi vista como uma nova esperança para o povo de São Tomé, como conta Zawa:

“Nós vimos isto como uma das coisas mais importantes do mundo. Vimos isto, não é uma metáfora… Éramos quase 10 pessoas no início. Fomos os primeiros a participar e nós ganhamos um gosto, ganhamos uma certeza. Falamos um para o outro ‘Até que enfim!’.  As nossas sabedorias vão crescer porque esse projeto chegou e nos deu uma esperança, temos a certeza de que um dia vamos colher os frutos desse projeto. É assim que nós encaramos o que está acontecendo. Tivemos a oportunidade de conhecer o Brasil graças a esse projeto, portanto, para nós é uma coisa muito maravilhosa, uma coisa muito importante e o povo de São Tomé conta com esse fruto”, afirma o contador de histórias.

Para tornar visitas como as de Zawa e Gweva possíveis, entre tantas outras feitas por brasileiros ao arquipélago, foram investidos nos dois anos de existência do projeto cerca de 450 mil dólares, recursos vindos da ABC, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Ao todo, desde o início do projeto, em agosto de 2012, foram realizadas 10 missões, envolvendo em torno de 10 a 15 docentes atuando em São Tomé, além dos que atuam na própria UFF. Para o futuro, a expectativa é que o projeto continue crescendo, como conta o diretor do IACS, Leonardo Guelman:

“Há um cenário de extensão do projeto. Em 2015, no final de março ou no início de abril, nós teremos um seminário lá, onde poderemos articular novas ações. Então, a perspectiva do projeto é contribuir para a sociabilidade, para a ética, para a cidadania, para fortalecimento da cultura, entendo que as práticas de comunicação também são práticas de transformação da realidade”, conclui Guelman.

Veja abaixo a galeria de fotos feitas na oficina “Fotografia como Expressão, Documentação e Memória”, ministrada pelo professor Rômulo Correa:

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