Profissão: fã de carteirinha

Por Ariel Cristina Borges

Se a definição de fã brasileiro estivesse incluída no dicionário, ela seria uma adaptação da que foi utilizada por Carina Lamonatto e Thaís Ximenes na matéria “Ser fã é…”, de dezembro de 2013, aqui no O Casarão: “Não é difícil ouvir de artistas internacionais que visitam o nosso país que os fãs brasileiros são os mais calorosos do mundo. Nosso povo sabe demonstrar muito bem quando gosta mesmo de alguma coisa. Religião, futebol, música, o que for. Quando o assunto é ser fã, o Brasil tem o número um na carteirinha”. E ter o número um na carteirinha pode significar horas gastas em planejamento de eventos variados, documentários, ingressos antecipados, filas, coleções de pôsteres, brindes e muitas outras coisas

A adolescência é a fase da vida em que ser fã devotado é mais comum. E não é preciso muito para perceber isso: basta ver a idade média das pessoas que fazem revezamento em filas de shows por uma semana para ver determinado artista internacional. A psicóloga Candida Maria Gomes explica o motivo dessa intensidade na admiração por parte dos mais jovens. “As crianças e adolescentes têm a tendência natural de buscar ídolos. Na adolescência, o ídolo é a identificação dos desejos e anseios. Por ser uma idade que transgride regras, os exageros em atitudes, apresentação pessoal e os modismos de fala e gestos são constantes”. Ela continua: “As pessoas mais velhas ou emocionalmente maduras já não buscam como o adolescente a identificação através do outro, porque já o fizeram por um período e amadureceram a sua estima”.

Na estampa da camiseta, Beatriz mostra uma das tatuagens de Nick Jonas, "God is greater than the highs and lows" - "Deus é maior do que os altos e baixos" (Arquivo pessoal)

Na estampa da camiseta, Beatriz mostra uma das tatuagens de Nick Jonas, “God is greater than the highs and lows” – “Deus é maior do que os altos e baixos” (Arquivo pessoal)

Beatriz Oliveira tem 20 anos e conta que, com o passar do tempo e a maturidade, foi natural deixar um pouco os antigos ídolos de lado. “Quando eu era mais nova, vivia pelos Jonas Brothers. Fui a todos os shows deles no Brasil, tive fã clube, era apaixonadíssima por um dos integrantes e as paredes do meu quarto eram cheias de fotos deles e de outros artistas que eu gostava. Conforme fui crescendo, as responsabilidades aumentaram, o tempo diminuiu e eu fui me afastando gradativamente dessa parte da minha vida”, diz a estudante de Direção Teatral. “Até hoje, se começo a ouvir uma música dos Jonas Brothers ou um filme que eles fizeram, sei as letras e as falas. Quando um deles lança um CD novo atualmente, eu ouço, mas não é a mesma coisa. Ficou uma nostalgia boa, uma desculpa para juntar as amigas e relembrar a época de escola”.

Quando, mesmo depois de certo tempo, a admiração intensa comum na adolescência não passa, a situação fica mais complicada. “Caracteriza-se idolatria quando o fã inconscientemente deseja ser a outra pessoa ou ter a vida dela já depois de adulto. Esse estágio da patologia onde o ser já não se vê, mas faz uma imagem de si mesmo através do outro, levando a neuroses e psicoses delirantes, necessita de tratamento medicamentoso e terapia”, afirma Candida. Um exemplo é o americano Mark Chapman, que matou John Lennon com quatro tiros nas costas em dezembro de 1980. Candida finaliza afirmando que ser fã na vida adulta é saudável quando a pessoa “reconhece suas próprias potencialidades e passa a ser fã de pessoas que deixaram ou deixam valores comuns na identificação”.

Fã da realidade

Eastwood Allen tem 27 anos e trabalha como editor de vídeos na Inglaterra. Fã do cantor, compositor e guitarrista americano John Mayer, ele resolveu prestar a primeira homenagem ao ídolo com seu trabalho em 2010 e montou um videoclipe não oficial para a música “Assassin”, do álbum “Battle Studies”. Quatro anos, uma boa repercussão e alguns álbuns de John depois, Eastwood teve a ideia de fazer mais um videoclipe, dessa vez, para a faixa “The Age of Worry”, do álbum “Born and Raised”. Foi aí que os planos dele começaram a mudar. “O vídeo ia ser como uma mini biografia da carreira do John até ele lançar o ‘Born and Raised’ (em 2012). Eu amo “The Age of Worry” e como ela é bem diferente de ‘Assassin’, eu tive que tomar uma direção distinta na edição. Comecei a pegar fotos de quando o John era pequeno, fotos de ensino médio, da faculdade e em pouco tempo, eu já tinha de 6 a 7 minutos de vídeo. Então eu percebi que tinha um projeto muito maior para ser feito e depois de muita pesquisa e muitas anotações, eu pensei em dar uma chance ao documentário”, disse Eastwood.

Seis meses depois, estava pronto o “Someday I’ll Fly”, um documentário que conta a carreira de John Mayer até a gravação de “Born and Raised”, seu quinto álbum de estúdio, em pouco mais de uma hora. Eastwood recolheu todo o material para o documentário na internet e não teve a ajuda de John ou de sua equipe em momento algum, foi um trabalho completamente independente. Depois de pronto, Allen upou o filme em sua conta no YouTube e deixou livre para quem quisesse assistir.

Com “Someday I’ll Fly” fazendo o maior sucesso entre os fãs de Mayer, chegou a vez de os brasileiros fazerem a diferença. Os fã clubes “Vai Lá Fã do John Mayer”, “John Mayer Brasil” e o site “John Mayer BR” se juntaram e organizaram um evento para a exibição legendada do documentário. Jéssica Mayara, do “John Mayer Brasil”, falou um pouco sobre como surgiu a ideia para o evento: “Nós já estávamos planejando uma coisa diferente e já tínhamos a parceria com a Livraria Cultura, que cedeu o espaço do teatro para a gente. Então, o Eastwood estava divulgando o doc dele e eu sabia que as meninas do ‘John Mayer BR’ estavam trabalhando na tradução e legenda do filme”, diz a estudante de Serviço Social de 24 anos. Ela continua: “Eu pensei que juntar os fãs para assistir o documentário legendado seria algo inédito, falei com as meninas do “John Mayer BR” e do “Vai Lá” e nós começamos a organizar”.

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Foto oficial do evento (Vai Lá Fã do John Mayer)

Larissa Abreu e Natiene Vieira, de 19 e 20 anos, respectivamente, são administradoras da “Vai Lá Fã do John Mayer” no facebook e contaram que se impressionaram com o sucesso do evento: quando as inscrições foram abertas, as vagas acabaram em menos de um dia. “Nós não vimos uma mensagem ruim sobre o evento”, fala Natiene. “Algumas pessoas até nos adicionaram no facebook pessoal para nos parabenizar”, ela continua. A repercussão foi tanta que, alguns meses depois do evento, o “Don’t Stop This Trem”, fã clube mineiro do John Mayer, realizou a segunda edição em Minas.

Quando perguntadas sobre a “idade para ser fã” e a opinião das pessoas mais próximas sobre isso, Larissa disse que a briga maior é com a sua consciência. “Às vezes eu me acho infantil para a minha idade por dar tanta importância ao John e a outros ídolos, mas eles são meu escape da vida chata de trabalho e faculdade. Me faz bem”. Jéssica, a mais velha do trio, conta que está começando a se achar velha para ser fã agora, mas se defende: “Eu não sou uma fã que quer saber até a cor da cueca que o John usou na terça feira. Não sou especialista em John Mayer. Eu gosto da música dele e do que ele transmite através dela”. Natiene dá o veredicto: “É normal encontrar fãs mais velhos entre o fandom do John porque ele não tem um apelo tão grande com as adolescentes que gostam de boybands”.

John Mayer visitou o Brasil pela primeira vez em setembro de 2013, quando fez um show em São Paulo e participou da última edição do Rock in Rio. Larissa foi a única que conseguiu ir para a apresentação do festival e conta como foi a experiência. “Foi bem cansativo, porque eu passei o dia na fila e depois fiquei lá na frente esperando o show dele, mas quando começaram a colocar os tapetes no palco e eu percebi que eu ia ver o John Mayer ali na minha frente, esqueci o cansaço. Quando ele entrou tocando ‘No Such Thing’ no violão, foi surreal. Não dá para descrever”.

Fãs da ficção

Em 23 de março de 2012 chegava aos cinemas a adaptação cinematográfica do primeiro volume da trilogia best seller “Jogos Vorazes”, escrita pela americana Suzanne Collins. Na época, o terceiro livro da série estava sendo lançado no Brasil e os outros dois volumes já eram sucesso de vendas. Com um forte apelo adolescente, depois do filme, a história se tornou rapidamente um fenômeno e, como não poderia ser diferente, com inúmeros fãs espalhados pelo mundo todo.

Da 19 de novembro foi a estreia brasileira do terceiro – e penúltimo – filme da franquia, “A Esperança – Parte 1”, dois dias antes da estreia mundial. Ano passado, a estreia de “Em Chamas”, o segundo filme, foi a primeira a ser adiantada no Brasil. Também foi antes dessa estreia que aconteceu a primeira edição da “Turnê da Vitória”, evento de fãs organizado pelo grupo Fandom em Ação, na Quinta da Boa Vista.

O dia 16 de novembro foi o escolhido para a  “Turnê” de “A Esperança – Parte 1”, também na Quinta da Boa Vista e as organizadoras Karina Alves, de 19 anos, e Alexia Freitas de 17, falaram sobre a organização e o evento anterior. “É legal porque o pessoal interage bastante com a gente e com o espaço da Quinta. Nós simulamos uma arena, como nos filmes, e a galera rola no chão, se joga na lama e se empolga bastante até embaixo de chuva”, diz Karina, usando a prótese dentária que a deixa parecida com Enobaria, personagem da história que tem os dentes pontiagudos e os usa como armas.

Karina "afiando" os dentes pontiagudos com uma faca (Ariel Cristina Borges)

Karina “afiando” os dentes pontiagudos com uma faca (Ariel Cristina Borges)

“Acho que a gente gosta tanto de uma coisa, que a gente quer, de certa forma, participar disso”, explica Alexia sobre a vontade de organizar esses eventos ao ar livre. “O fã tem vontade de participar, de fazer parte desse mundo da história e, às vezes, você vai em alguns eventos em que você fica sentado, não se diverte, não faz nada. A partir dessa vontade de fazer melhor, trazer a ficção para a realidade, nós começamos a organizar os eventos. A gente sempre tenta trazer a ficção daquele livro pra realidade, transformamos a Quinta da Boa Vista”, completa Karina. “E dá tanto trabalho que, no final, a gente sempre sai para comer no shopping e acaba dormindo em cima das mesas da praça de alimentação”. Alexia diz que, mesmo cansativo assim, organizar esses eventos é  gratificante

Além de “Jogos Vorazes”, o Fandom em Ação também trabalha com outras sagas, como “Divergente” e “Percy Jackson”. Mesmo assim, o evento que mais faz sucesso é a “Jornada Literária”, onde eles juntam várias histórias e fandoms para uma espécie de caça aos personagens principais. Vence a equipe que encontrar seu personagem correspondente primeiro.

É comum ver a interação dos pais durante os eventos do Fandom em Ação. Sergio Augusto, integrante da equipe, explica que é normal ver vários pais esperando e olhando os filhos por causa da faixa etária baixa entre os participantes. “Os pais ficam vigiando e confiam na gente. Eles vêm perguntar onde estão os filhos deles, o que vai acontecer, e nós sempre buscamos dar atenção para que eles vejam que nós temos o cuidado de planejar tudo e realmente tomar conta dos participantes”, ele diz. “Inclusive, houve um evento em que um menino caiu sozinho e rasgou a mão inteira. Nós temos socorristas na equipe, então pegamos o menino, limpamos o machucado, enfaixamos e, quando fomos procurar o pai dele para explicar o que aconteceu, ele estava do nosso lado, acompanhando tudo e ninguém tinha percebido”.

Desiree e Ana nas pontas, vestidas como Primrose e Katniss e a mãe delas no meio, também de Katniss. (Ariel Cristina Borges)

Desiree e Ana nas pontas, vestidas como Primrose e Katniss e a mãe delas no meio, também de Katniss. (Ariel Cristina Borges)

Alguns pais também embarcam na história e não ficam só observando de longe. Ana e Desiree, de 14 e 12 anos, chegaram ao evento com a mãe, que, como elas, estava vestida como uma personagem do filme. “Eu gosto, já li os livros e assisto a todos os filmes junto com elas no cinema”, conta a mãe, que preferiu não se identificar.

Diego e o tridente de PVC e madeira: "Acharam que eu era um assassino na rua". (Ariel Cristina Borges)

Diego e o tridente de PVC e madeira: “Acharam que eu era um assassino na rua”. (Ariel Cristina Borges)

Mas, falando em se caracterizar, quem chamou a atenção ao chegar à Quinta da Boa Vista foi Diego Jesus, de 20 anos. Nas horas vagas, ele trabalha fazendo adereços para fãs e, para esse dia, tinha a encomenda de um tridente como o de Finnick Odair, um dos personagens principais de “Jogos Vorazes”.

“Para ‘Jogos Vorazes’, esse foi o primeiro cosplay que eu fiz. Levou três dias para o tridente ficar pronto. Mas eu faço réplicas de armamento em geral para esses eventos. Não dá para viver com o dinheiro, mas dá para lanchar no Mc Donald’s no fim de semana”, ele brinca. Diego também participou da “Turnê” do ano anterior e foi o vencedor da arena. “Eu não conhecia ninguém, só sabia que queria chegar aqui e matar todo mundo”, ele ri.

Consequências de ser fã

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Alguns integrantes do grupo no WhatsApp: (esq para dir) Jéssica, Karoline, Lucas, Natiene, Larissa, Nicholas e Lucas (Vai Lá Fã do John Mayer)

Natiene, Larissa e Jéssica também contaram que, desde o evento de exibição de “Someday I’ll Fly”, elas mantém contato através de um grupo no WhatsApp com as pessoas que as ajudaram no dia. “O grupo foi criado para facilitar a nossa comunicação antes do evento, mas mesmo três meses depois, nós ainda mantemos contato e viramos amigos”, diz Natiene. Larissa completa: “Inclusive, nós estamos marcando de fazer alguma coisa juntos novamente, só esse grupo pequeno”.

Sergio também diz que a melhor coisa que tira dessa experiência são as amizades. “Percebi que, por trás das pessoas que vêm para a Quinta da Boa Vista se vestir dos personagens de que são fãs, existem pessoas de verdade, com problemas cotidianos comuns. Conheci alguns dos meus melhores amigos por aqui, pessoas que me ajudaram em momentos difíceis e felizes, então eu posso dizer que é por isso que vale a pena toda a dedicação”.

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