Um teto para Jardim Gramacho

Há menos de 40 minutos do Centro do Rio fica uma comunidade com aspecto semelhante ao que se costumar pensar só existir muito longe daqui. Em volta do que um dia foi o maior lixão da América Latina se formou um bairro, que durante mais de 30 anos tirou do lixo da sociedade seu pão diário. Em 2012, o lixão foi desativado e Jardim Gramacho, localizado no município de Duque de Caxias, foi, ao contrário do prometido, esquecido pelo poder público.

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Gramacho dois anos após o fechamento do lixão (Foto: André Hawk/+5521)

As atividades de despejo de lixo no local se iniciaram na década de 1970, com previsão de durar 20 anos. Mas elas se estenderam para muito além, e com uma quantidade de despejo também muito superior à estipulada – mais de 9.500 mil toneladas de rejeito domiciliar por dia. Nas redondezas se instalaram muitas cooperativas de reciclagem de lixo, e assim a atividade de catação se tornou atraente porque o retorno financeiro era imediato: o catador pegava o que do lixo podia ser reaproveitado e vendia no mesmo dia. Assim, moradores do local afirmam que lá chegaram a trabalhar mais 5 mil pessoas diariamente.

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Crianças brincando em casa (Foto: André Hawk/+5521)

O fechamento em junho de 2012 foi resultado de pressões políticas de ambientalistas. A proximidade com um mangue da Baía de Guanabara é grande e isso os preocupava, além de o local já ter ultrapassado sua vida útil. Para cumprir o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que estipulava a extinção dos lixões até 2014, o fechamento era necessário. Então, no contexto da Rio+20, as atividades foram encerradas.As promessas que acompanharam o fechamento eram muitas. Cadastramento dos catadores, revitalização do bairro para torná-lo um modelo pioneiro de bairro sustentável, implantação de um polo de reciclagem e auxílio aos catadores que ficaram sem emprego. A única cumprida foi a da indenização: os catadores receberam em torno de 14 mil reais.

“Muita gente recebeu o dinheiro e gastou como bem entendeu. O povo aqui não faz planejamento. O meu dinheiro não rendeu” contou Dona Ana Maria, de 57 anos, moradora da região há mais de 30. Ela explicou também que a renda mensal dela hoje é de R$ 77,00, que recebe de Bolsa Família, mais o pouco que o marido consegue catar e vender. Antes, ela conseguia tirar isso em apenas um dia de trabalho no lixão.

 

Gramacho hoje
A situação do bairro hoje é de completo abandono. Ambiente insalubre e condições sub-humanas é o que se encontra. O lixão regular foi desativado, mas despejos ilegais continuam acontecendo sem que haja fiscalização. Perto da rampa, local exato onde o lixo era jogado, foi instalada uma usina de tratamento do biogás, que exala um cheiro extremamente desagradável. Não há saneamento básico. Água encanada também é promessa distante. Não há coleta do lixo que é produzido lá e a saída dada é queimá-lo.

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Lixo e moradia se misturam (Foto: André Hawk/+5521)

O que é mais impactante são as casas. Barracos com retalhos de madeira, tapume, papelão e o que mais servir formam as paredes e os telhados sem menor estabilidade e resistência. O chão costuma ser um tapete em cima da terra ou do próprio lixo. Algumas não têm divisão de cômodos, outras separam a cozinha do quarto onde muitas vezes dormem mais pessoas do que caberia confortavelmente. O banheiro na maioria das vezes é do lado de fora, as necessidades se fazem a céu aberto e o banho é de balde. É normal que as casas encham quando chove, e em dias de sol o calor castiga, porque as casas não são arejadas e ventilador é luxo.

 

Ongs tentam fazer o que é dever do Estado

O Plano Diretor de Duque de Caxias aponta que faz parte da Política Habitacional do município a garantia de acesso à moradia digna para camadas de baixa renda da população. Mas em Gramacho isso é negligenciado. Onde o poder público não é eficaz, o poder paralelo se instala. Por isso, os moradores convivem com tráfico. Por outro lado, também surgem organizações não governamentais buscando tapar os buracos que o Estado deixa.

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Voluntários construindo (Foto: André Hawk/+5521)

Esse é o caso da ONG Teto, que trabalha com as famílias que vivem em condições de vulnerabilidade social e atua no local desde 2013. O objetivo principal é mobilizar os comunidade para se organizar e ir em busca de melhorias para o lugar onde vivem. Mas a primeira ação da ONG tem caráter de urgência: o que mais grita em termos de necessidade é a questão da moradia, e por isso, o primeiro trabalho é a construção de casas de emergência para aqueles que apresentam mais necessidade, segundo uma enquete de caracterização socioeconômica aplicada de casa em casa.

A voluntária da ONG Ana Jansen explica: “antes o Teto faz uma pesquisa para ver quais são os casos mais emergentes, levando em conta diversos quesitos, até a saúde das famílias, por exemplo. O objetivo da casa, além de conquistar a confiança (porque existe um certo pé atrás com ONGs que prometem muito e somem) é também pelo fato de que moradia é um problema em torno do qual giram a vida de muitas pessoas, que sequer conseguem trabalhar, porque têm medo de uma chuva demolir a casa. Então, o TETO procura dar uma estrutura para que as famílias consigam se reestruturar”

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Casa construída (Foto: André Hawk/+5521)

Essas casas são construídas em dois dias pelos voluntários, em sua maioria jovens universitários. Para a ONG  é importante que as famílias se envolvam no processo de construção e em muitos casos não só a própria família, mas outros moradores da comunidade chegam para trabalhar juntos.  As casas têm 18 metros quadrados e não têm divisões. A estrutura consiste de módulos de madeira pré-fabricados, cobertos por telhas em aço galvanizado. Pode parecer pouco, mas para muitas famílias representa uma mudança de vida. Desde então, já foram construídas mais de 30  destas moradias no bairro.

A atividade de construção colabora para a criação de vínculos de confiança entre os voluntários e as comunidades. “A experiência com as famílias me toca muito, todas as histórias dos moradores são muito bonitas, de gente que corre muito atrás, mas não tem perspectiva de melhoria porque as condições são realmente muito precárias. É impressionante você ver as pessoas lidando com aquilo, porque na verdade você sabe que existe em vários lugares do mundo, mas é impressionante estar lá e viver um pouco daquilo”, contou a voluntária Ana.

Conheça um pouco da história do TETO no Rio:

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