Moradias estudantis: Desafios e Percalços

Por Caio Moreira e Thiago Moura

Para muitos jovens, passar no vestibular traz consigo a sensação de dever cumprido. Momento de curtir, criar novas amizades e de ter o primeiro contato com a profissão escolhida. No entanto, para alguns estudantes, ingressar em uma universidade pública requer esforços e sacrifícios após a aprovação. Muitos destes alunos não têm condições de percorrer grandes distâncias para poder chegar à  faculdade. É nessa realidade que as moradias estudantis aparecem.

Não é difícil encontrar, a cada semestre, calouros de diversas partes do estado e do país em busca de casas para morar. Casas alugadas, Repúblicas Estudantis ou Alojamentos Estudantis servem como o aparato para que esse indivíduo tenha o conforto e a facilidade de estar em um ambiente que o ajude nos estudos. Mas nem tudo é fácil. A independência e adaptação a um ambiente novo e nem sempre tão estruturado requer paciência e determinação.

É assim, por exemplo, que acontece na Universidade Federal Fluminense, onde o recém-construído alojamento de estudantes recebe pessoas de todas as partes do país e do mundo, apesar de seus problemas. A moradia estudantil da UFF em Niterói fica no campus do Gragoatá e conta com 320 vagas, nem todas ocupadas.

O  Alojamento da UFF é uma das opções dos alunos que moram muito longe para estudar (Foto: Reprodução/Internet)

O Alojamento da UFF é uma das opções dos alunos que moram muito longe para estudar (Foto: Reprodução/Internet)

“Atualmente nós somos cerca de 209 estudantes (presentes no alojamento), a moradia comporta em torno de 320. Não não dá para dizer com certeza, porque muitos saem sem avisar, mas creio que deve haver aproximadamente umas 90 vagas ” afirmou Rosana dos Santos Miranda, estudante de Cinema e nascida na Bahia.

A jovem faz parte do “Coletivo MEU” (Moradia Estudantil da UFF), criado por moradores do alojamento. Atualmente, o lugar conta com sete estrangeiros (seis africanos e um haitiano), além de moradores dos mais diversos estados do Brasil: Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, Acre, Rondônia, dentre muitos outros. Rosana explicou como são divididos os cômodos.

“A gente tem uma cozinha, com dois fogões industriais e uma pia pequena, e uma sala de convívio, que tem “pingue-pongue”, sinuca e televisão. São duas mesas de “pingue-pongue”, uma que fica na sala de convívio e outra que fica no refeitório, que não é utilizado, porque não tem como cozinhar naquela cozinha. A gente tem um refeitório que funciona como um salão de festas. A galera que fica no final de semana é que cozinha e pouco, pois não tem muitas condições para isso e não sabem utilizar o fogão. Em cima tem a sala de multimídia, com computadores que não são os melhores, são sucateados”, explicou.

No entanto, a estudante apontou vantagens de morar nestes alojamentos. Segundo Rosana, a interdisciplinaridade é um fator interessante.

“É legal porque tem vários cursos diferentes aqui. Então, uma coisa que eu não sei acabo aprendendo com outro, pois ele faz um curso diferente do meu e possui uma cultura diferente. Isso é bem interessante dentro da moradia estudantil, ter um pouquinho de cada canto do Brasil e do mundo aqui. Às vezes tem estresses, óbvio, porque são pessoas que nunca se viram e, de repente, começam a conviver diariamente. No começo é chocante, mas com o tempo vai se acostumando e depois vira uma família que se ajuda.

A UFF conta com outro alojamento, localizado em Rio das Ostras, que conta com apenas 48 moradores. Para ambos, o processo seletivo é feito pela Proaes (Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis) e requer alguns critérios (socioeconômicos, distância, gênero, etc). A seleção é longa e dividida em fases: inscrição online, entrega de documentos, entrevista com assistente social e exames médicos. Os interessados devem procurar a Proaes para obter mais informações. (CONFIRA O EDITAL)

Universidades Federais do Sudeste que têm moradias estudantis (Foto: Arte - Caio Moreira e Thiago Moura)

Universidades Federais do Sudeste que têm moradias estudantis (Foto: Arte – Caio Moreira e Thiago Moura)

Outras universidades do país também dispõem de moradias. Na UFRJ, por exemplo, o alojamento estudantil é antigo e precário. Abriga 504 alunos e é dividido em dois blocos, masculino e feminino. Os critérios de seleção são rigorosos e muitos alunos não conseguem vaga. As principais reclamações dos alunos são quanto à má conservação do local, problema antigo. Contudo, alguns blocos já passam por reforma e a tendência é de melhorias no local, instalado na Ilha do Fundão.
No Rio de Janeiro, três universidades federais dispõem de alojamento: além da UFF e da UFRJ, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) conta com moradia para 2 mil estudantes. Pouco para a quantidade de alunos.

Em outros estados do sudeste o problema é o mesmo. Quando há alojamento, são poucas vagas. Muitas universidades não têm moradia estudantil gratuita, outras alugam repúblicas na cidade e disponibilizam para seus alunos, mas todas têm projetos de auxílio-moradia, que variam de R$ 200 a R$ 400. Na Universidade Federal de Ouro Preto, além do alojamento estudantil, existem 58 repúblicas federais. É uma forma de moradia peculiar, na qual as casas são adquiridas com verbas do governo federal e são geridas por um grupo de estudantes, que tem autonomia para elaborar seu regimento interno. Este sistema é único no Brasil.

No entanto, não só de alojamentos gratuitos vivem os estudantes. A grande maioria opta por morar em repúblicas ou apartamentos divididos. Histórias diferentes que se assemelham no final. A independência tem seu preço, que todos se dispõem a pagar em troca de um diploma da Federal. É o caso da Laura Alonso, estudante de jornalismo da UFF. Moradora da Barra da Tijuca, ela preferiu dividir apartamento em Niterói.

” Mesmo tendo carro, ficava muito difícil ir e voltar todo dia, perdia muito tempo. Como meu estágio é em Niterói, resolvi dividir apartamento aqui mesmo. Gasto menos e otimizo meu tempo” afirmou Laura, que divide apartamento com uma amiga estudante de publicidade. ” Tudo aqui é dividido”, disse.

A tentativa de viver uma vida longe dos pais muitas vezes requer uma organização que não estão acostumados;(Foto: Thiago Moura)

A tentativa de viver uma vida longe dos pais muitas vezes requer uma organização que não estão acostumados;(Foto: Thiago Moura)

Quem resolve morar em repúblicas muitas vezes tem de conviver com regras peculiares. Muitos donos fazem exigências mirabolantes. A estudante de direito da UFRJ Mohara Coimbra passou por dificuldades. Segundo ela, os requisitos eram os mais diversos.

“Visitei um lugar que não podia levar nem meus familiares para visitar. Tinha outro local que não podia fritar um bife na cozinha, por causa da gordura. Sinceramente, me questionei se estava em uma república ou em uma prisão”, disse Mohara, que atualmente divide apartamento com outras quatro estudantes, e arca com os custos do próprio bolso.

Para evitar confusão, cada uma ficou com um andar da geladeira, o freezer é de uso comum (Foto: Thiago Moura e Caio Moreira)

Para evitar confusão, cada uma ficou com um andar da geladeira, o freezer é de uso comum (Foto: Thiago Moura e Caio Moreira)

As dificuldades são grandes, mas muitas vezes rendem boas histórias. É o caso do João Pedro Jardim, recém-formado em Engenharia Ambiental pela UFF. Da república, nasceu uma amizade.

“Procurava apartamento em Niterói, quando achei duas pessoas nas redes sociais que também procuravam. Resolvemos dividir um apartamento próximo ao campus do Valonguinho. Hoje moro com meus pais, mas um deles ainda mora comigo, viramos amigos de verdade”, disse João.

 

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