Maraca Vivo

Texto e foto por Gabriel Vasconcelos

No dia anterior, saí do jornal em que trabalho e, por força do hábito, fui ter com alguns amigos na mesa de bar. Sabia que não devia beber muito porque no dia seguinte, bem cedo, entrevistaria uma das figuras mais marcantes da minha infância: o histórico maqueiro do Maracanã Mike Tyson ou, para os mais íntimos, Seu Enéas.

Ao soar do despertador de corda, acordei com o estômago revirado, talvez pela bebida, talvez pela azeitona do pastel, quem vai saber? O fato é que me levantei na hora e não aceitaria remediar. Fiz uma hora em casa, mas a ressaca – ou, para a mãe, o mal estar – não dava trégua. Com receio de pegar no volante ou passar mal no calor do ônibus, pedi a meu pai que me levasse e, para minha surpresa, ele topou. A mística daquele simpático aposentado do subúrbio de Brás de Pina era tamanha que até mesmo o mais ranzinza dos homens que torcem por futebol seria seduzido por cinco minutos de conversa.

Quando saltei do carro, encontrei Mateus, o amigo, que esperava embaixo de uma árvore solitária já havia uma hora. A casa era ali mesmo, na esquina, e os vizinhos se preparavam para o churrasco na calçada. Ao segundo toque na campainha, uma voz rouca pediu que aguardássemos. Era ele, mas não era. De óculos escuros e com um sorriso que lembra Stevie Wonder, ele abriu o portão. Não era mais o negão “quatro por quatro” que víamos disparar pelo gramado sempre que um ou outro jogador caía. Aquele, que outrora fora a cara do vigor físico, hoje está magro, anda e enxerga com dificuldade. Ele próprio estranha: “não faz muito tempo que eu parei, era muito forte, mas hoje, às vezes, me olho no espelho e não me reconheço, fico meio puto, mas é a vida”, diz.

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Após a cirurgia nos olhos, óculos escuros e televisão desligada

Aos 73 anos, Enéas se recupera de uma operação nos olhos que não sabe especificar. Antes disso, operou a tireoide no Hospital dos Servidores, na Gamboa, de cujo atendimento reclamou muito. Mesmo assim, o prazer em nos receber e a altivez com a qual fala do maior do mundo e suas histórias não deixa dúvidas: é ele, o homem que tanto xinguei quando acudia o adversário, o mesmo para quem eu pedia para demorar quando o Botafogo vencia o jogo.

A casa era humilde, mas aconchegante: dois quartos, sala e uma pequena cozinha com área de serviço. Ficamos na sala, escurecida para não afetar a vista do nosso personagem. Na expectativa de escutar apenas alguns bons causos, ouvimos mais do que esperávamos. Foi ligar o gravador para ele dizer, sem rodeios: “Não gostei muito desse Maracanã não, preferia o antigo, com aquela geral bacana, ingresso e comida barata. Mas é a tal da Fifa. Por causa de dinheiro, eles esculhambaram o Maracanã”, reclamou. E Seu Enéas tem cabedal para falar, afinal, foram 38 anos lá dentro.

Eles quebraram o Maracanã. Acabaram com o principal, que era a geral

A história começou em 1975, quando foi convidado para fazer a segurança de um show de Gilberto Gil no estádio. “Eu fiquei em um dos portões com um coroa da Suderj. Perguntei como fazia para trabalhar lá, mas ele disse que era difícil porque era do governo”, conta, ao dizer que admirava o Maracanã todos os dias quando, ainda jovem, passava de trem em frente ao estádio no caminho para o trabalho. “No final, ele me apontou o tal do superintendente Pedro Hipólito que, todo estúpido, me perguntou o que eu queria. Eu disse que queria varrer a arquibancada e ele disse que não tinha vaga, mas acabou dizendo que ia me colocar na maca. Eu nem sabia o que era maca. Ele me explicou que era para carregar jogador. Achei aquilo uma beleza. No outro domingo, me apresentei em um Flamengo x América”, lembra.

O apelido e a fama
Não demorou muito para Enéas ser efetivado no quadro móvel da Suderj, formando a famosa dupla Mike Tyson e Ananias – apelido dado pelo jornalista esportivo Gilson Ricardo – com o outro maqueiro de nome Geraldo. “Lembro que tinha um locutor da TVE que dizia assim: está lá um corpo estendido no chão, é o primeiro caído da tarde para Enéas e Geraldo”, se recorda na tentativa de justificar a popularidade. “Ficamos muito famosos. Tirávamos fotos com a torcida, aparecíamos na TV e não tinha um que entrasse naquele campo e não falasse com a gente. Eu tinha uma moral tremenda com os jogadores”, conta.

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Querido pelas torcidas, Seu Eneás trabalhou 38 anos no Maracanã (Foto: arquivo pessoal)

Mas todo esse sucesso não chegava ao bolso. Seu Enéas recebia por jogo e, segundo ele, a remuneração não era lá grande coisa. Por isso, continuou a fazer segurança particular, trabalho que dava envergadura ao orçamento familiar. E os contatos ajudaram. Ele trabalhou como segurança em Quintino, na casa da família de Zico, de quem se lembra com carinho, além de outros lugares como bancos e clubes. Na lista de famosos que escoltou, figuram Claudia Raia, Angélica e o ex-Ministro da Fazenda Mario Henrique Simonsen. Mas o que Enéas gostava mesmo era passar o tempo no Maracanã. “Aquela galera da geral me sacaneava, jogava copo de mijo em mim. Eles me xingavam e depois gritavam meu nome”, lembra indo da euforia à tristeza ao completar: “Eles quebraram o Maracanã. Acabaram com o principal, que era a geral. O Maracanã era bonito, dava gosto de ir. Agora não sinto mais vontade”.

Os causos
“Lembro que o Sávio tomava muito cacete e o Bebeto era chorão. Já o Romário era manhoso, caía de sacanagem e eu tinha que carregar ele mesmo sabendo que não era nada. Quem me sacaneava muito era o Junior Baiano, ele e Serginho Chulapa não cabiam na maca. Teve um jogo em que o Flamengo tinha acabado de entrar em campo e o Baiano caiu. Eu disse ‘porra, pera aí, que é que é isso’, mas era distensão na coxa direita. Quando ele subiu na maca, a coisa envergou. Teve um Brasil x Chile em que aquele goleiro Rojas caiu e não deixaram eu pegar nele. Colocaram mercúrio para fingir sangue e tentar acabar com o jogo, aproveitando que um rojão tinha caído no campo. Depois, quando ele foi para o São Paulo, reclamei sobre isso, mas ele começou a rir”, lembra.

Casado há 51 anos e pai de um único filho, o contato do vascaíno Enéas com o futebol hoje se dá pela memória, puxada por fãs que, não raro, o abordam nas ruas, ou pelo rádio, já que a televisão é contraindicada no pós-operatório dos olhos. Saudoso, ele diz sentir falta dos tempos de maca, mas se diz satisfeito com a vida. “Se eu morrer agora, estou satisfeito, eu curti. Passeei, trabalhei muito e me tornei famoso”, diz antes de nos ver sair pelo portão como criança com doce nas mãos. Só quem frequentou aquele Maracanã sabe o que significa.

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