Para ditar a liberdade: Entrevista com Rafucko

Por André Borba e Gabriela Novaes

Fotos de Felipe Magalhães

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Ele conhece bem o Rio de Janeiro, sua política, seus movimentos, sua efervescência. Rafael Puetter, mais conhecido como Rafucko, é videomaker, apresentador de talk show e presença constante nas manifestações de rua. Lutou com os professores por melhores salários, esteve nas históricas jornadas de junho e bate ponto em atos pelos direitos da população LGBT. Protesta, se envolve, grita. Com um humor que foge ao dos grandes canais de televisão, ele subverte. Na internet, faz deboche dos poderosos e sacaneia o status quo.

Em um fim de tarde no Arpoador, Rafucko falou sobre militância, homossexualidade e os vídeos que produz para a web. Confira a entrevista completa, que também integrou a edição nº sete do jornal O Casarão.

Você é o tipo de pessoa que a gente pode chamar de politizado. De onde vem a sua politização?

Sempre pensei muito sobre as relações sociais, mas não necessariamente sobre política. Eu era bem senso comum até um pouco antes de entrar na faculdade (ECO – UFRJ).  Lá eu tive contato com outras realidades e comecei a me interessar mais. Com a questão da homossexualidade, comecei a sentir uma necessidade de militar pela história que eu via da militância gay e que não conhecia. Muitas pessoas lutaram para que a gente chegasse nesse lugar, que ainda é muito atrasado. A militância gay foi a primeira influência forte do meu trabalho. Comecei a fazer vídeo sobre preconceito e homofobia, porém, depois, passei a abordar outros assuntos também.

Sabemos que você não é filiado a um partido político, mas você participa de alguma outra organização político-social, como um coletivo, por exemplo?

Acho muito complicada essa história de coletivo, porque eu sou egoísta, quero fazer do meu jeito. Então, eu me relaciono com todos coletivos, porque nós temos muito para nos adicionarmos e gosto muito de trabalhar com coletivos. Entretanto, para mim, é saudável que eu seja de todos e não seja de nenhum para poder circular. Tenho opiniões muito distintas sobre vários assuntos e, como mostro minha cara nos vídeos, acho complicado ficar numa situação de ter que falar alguma coisa em que não acredito totalmente.

Youtube e humor

Você começou a fazer os vídeos por causa dessa militância?

Eu sempre quis fazer vídeo de humor e criar conteúdo. Eu achava que era pra TV, porque fiz Rádio e TV. Mas com a internet, surgiu um novo formato, ao qual me adaptei muito bem. Tenho uns vídeos antigos que são bem menos sobre política. Não diria que são zero políticos, porque têm uma crítica.

Os seus vídeos te geram alguma renda?

Indiretamente. Eu consigo trabalho por meio de contatos novos que faço por causa dos vídeos, mas não monetizo os vídeos do Youtube. Meu vídeo já é um pouco mais difícil de as pessoas assistirem e ainda vou colocar a pessoa para assistir cinco segundos de Ivete Sangalo ou de Claudia Leitte? Não faz sentido. Até mesmo para eu ficar confortável de que não seriam anunciadas coisas que estou criticando.

Por ter um humor que pode ser chamado de contra-hegemônico, te preocupa que você não tenha espaço em grandes veículos de comunicação?

Não, porque essa é uma escolha minha. Acho que tem espaço e ele vai ser cada vez mais ocupado, mas as pessoas têm esse medo. No Rio de Janeiro, o mercado é Rede Globo. Por mais que critiquem, sempre ficam meio pianinho, porque podem acabar indo trabalhar lá. Mas, a Globo não é tudo, sabe? Ainda mais com essa questão de produção para a internet, os custos são menores. Acho que há alternativas sem depender dessa mídia muito rica.

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Homossexualidade

Assumir-se homossexual é um ato político?

Cada vez mais, eu percebo que tudo é um ato político, até nossa mera existência.  Tipo a questão do ’rolezinho’ ou das remoções. As pessoas vivem em um lugar há 40 anos, todo mundo sempre respeitou, até a Prefeitura aceitou que elas morassem ali, e, de repente, por causa das Olimpíadas, elas não podem mais. Por isso, a existência delas ali é um ato político.  Então, óbvio que sair do armário é um ato político. É bem corajoso. Para mim é muito menos do que para alguém de uma cidade do interior ou da periferia. Por isso, sinto uma necessidade de ir adiante.

O movimento LGBT, muitas vezes, é GGGG. Você percebe uma preponderância das pautas do homem gay, em detrimento das lésbicas, travestis e transexuais?

Eu sou homem gay e, por ser a minha experiência, falo cinco vezes mais de G do que de LBT. Mas se uma lésbica fala que ela se sente menos representada, quem sou eu para falar que não? É uma denúncia que pode ser muito verdadeira e, pelo que vejo, não me surpreenderia. Nunca vou dizer que sei o que é a experiência d@s trans e travestis, mas pelo que vemos, não tenho dúvidas de que el@s estão muito menos amparad@s do que eu por essa comunidade.

Cada vez mais, eu percebo que tudo é um ato político, até nossa mera existência

Qual foi a sua reação ao saber que seu vídeo sobre o beijo gay recebeu classificação etária de 18 anos?

O vídeo foi marcado como conteúdo ofensivo. Para assistir,  exigia-se senha para provar que o usuário tinha mais de 18 anos. Há um ano que não está mais assim. Chegou até a sair no jornal. Ficou um ano e meio assim, eu acho. Eu fiquei muito bolado porque é uma injustiça muito grande. A assessoria de imprensa do Youtube dizia que os usuários que tinham marcado o vídeo como impróprio. Cheguei a fazer print da tela para mostrar que não havia nada demais. Na época, não sabia lidar muito com a ferramenta. Isso me deu um pouco da dimensão de que nós somos muito pequenos e essas lutas são contra gigantes.

O beijo gay da novela “Amor à Vida” gerou muita polêmica com opiniões divergentes inclusive entre homossexuais. Você assistiu? O que achou?

Há dez anos tem essa polêmica no último episódio das novelas e estava rolando uma polêmica dessa quando fiz o vídeo do beijo gay. Eu já queria fazer o vídeo há algum tempo, então pensei que era o timing perfeito. Lancei uma semana antes do último capítulo e os personagens não beijaram. Passaram-se três anos desde o vídeo, e eu já vi tanta injustiça dez vezes maior que essa… Com o beijo em “Amor à Vida”, eu pensei em repostar meu vídeo, mas como não estou tão conectado mais com essa pauta, não o fiz. Essa questão, para mim, já ficou muito pequena. Esse beijo provocou discussão em todas as classes, o que é muito bom. O beijo gay está caminhando para virar um beijo apenas, e quando isso acontecer, iremos para as próximas discussões sobre as novelas.

Quais deveriam ser as pautas prioritárias do movimento LGBT? Uns defendem o casamento, outros, o kit anti-homofobia nas escolas…

14383928276_65e658a250_oAcho bobeira essas briguinhas. Seria mais fácil se cada um se juntasse na pauta dos outros. A pauta prioritária do movimento LGBT deveria ser a Ditadura Gay. Eu falo brincando esse nome, mas temos que começar a bater o pé de que certas coisas não são para serem discutidas. Evangélico que condena homossexual não dá opinião sobre legislação para homossexual. Não é ditadura, é apenas porque eles não serão contemplados por essa lei. O casamento entre dois homens não diz respeito a ninguém, além desses dois homens, só eles devem opinar se querem ou não. Existem pessoas que não têm que opinar em certos assuntos, como adoção e aborto. Não vamos debater, já existe muito debate. Não é uma discussão se o kit anti-homofobia deve ser distribuído, ele deve ser distribuído. Temos que ser mais assertivos, atacar mais do que ficar só nos defendendo.

Evangélico que condena homossexual não dá opinião sobre legislação para homossexual. Não é ditadura, é apenas porque eles não serão contemplados por essa lei

Na Parada Gay você lançou o Pink Bloc. Como surgiu essa ideia?

O Pink Bloc não é invenção minha, na verdade. Quando decidimos fazer, a intenção era trazer a linguagem e a dinâmica das outras manifestações que estavam acontecendo, como as do aumento da passagem, do Sergio Cabral, dos professores, para a Parada Gay. Nós sempre fizemos o caminho contrário, levamos a pauta da homofobia para o Ocupa Câmara e para outros movimentos. Eu já tinha saído de Pink Bloc em outros protestos, inclusive no dia em que fui preso. O objetivo é fazer essa ponte entre o gay apolítico, trazê-lo para a política, e o politizado homofóbico, trazê-lo para a aceitação.

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Política, PM e manifestações

Apesar de não ser filiado a um partido, você disse em entrevista que admira o Marcelo Freixo e o Jean Wyllys, pois eles representam uma nova política. Que nova política é essa?

Você vê no discurso que eles escolheram uma forma diferente de fazer política, que não é o caminho de usá-la para obter mais dinheiro ou mais poder. Isso fica muito claro quando eles dão nome aos bois. 90% dos políticos brasileiros falam sempre com meias palavras porque um sabe o podre do outro. O Jean e o Marcelo Freixo fazem questão de esclarecer o que está sendo dito, são pessoas extremamente didáticas. Eu acho que a nova política tem que ser feita assim. Dá para ver o quanto deve ser difícil, porque eles recebem ataques de todos os lados. Isso prova mais ainda a idoneidade deles, pois deve ser uma honra ser atacado pelo PSDB e pelo PT, que são os partidos mais sem honra que existem. Sinal de que você está fazendo a coisa certa.

Mas o próprio PT acabou pressionado por esse Congresso que nós temos.

Com certeza. Só que não tem necessidade de fazer da forma que fazem. Posso estar sendo utópico demais, mas alguém tem que chegar e enfrentar a dificuldade. Acho que certas concessões não podem ser feitas. O veto ao kit anti-homofobia foi feito com um texto igual ao da lei homofóbica russa: “Não podemos fazer propaganda de opção sexual para nossas crianças”. É absurdo. Isso era para ser um escândalo. Não consigo aceitar que o PT faça essas concessões (neste caso, à bancada religiosa). Eu acho absurdo essa galera governista que tenta defender o governo. Eles fazem umas piruetas lógicas que não fazem sentido nenhum só para defender o PT. É assustador. Quando eles fazem essas explicações, eles são constantemente racistas, misóginos, homofóbicos. Eles me xingam de ser do PSOL, como se fosse um xingamento ser filiado a um partido político, e viadinho. É aí que eles mostram quem eles realmente são. Existem pessoas que fazem um trabalho incrível no PT, mas é um partido homofóbico. Está no poder e não está fazendo nada. Está cooptado, vendido. Essas alianças, pra mim, são criminosas.

A  PM é autoritária e truculenta, principalmente na periferia. Você foi detido em Ipanema. De alguma forma, você se surpreendeu com a ação da polícia?

É impressionante. Você já viu vídeo, já viu na vida real meio de longe, mas quando você está deitado no chão, sem saber o que vai acontecer com você… Eu estava na melhor das situações, estava em Ipanema, tinha um monte de gente perto. Eles cometem abusos com as pessoas vendo e filmando. Claro que não foi nem um centésimo do que passa uma pessoa na favela. Imagina um caveirão na Av. Brasil às 3h da manhã? Não tem destino. O cara pode ser torturado por horas, como muitos já foram. De alguma forma, já sabia que isso não iria acontecer comigo. Mas a gente fica pensando: até onde vai acontecer? É um risco real de que talvez seja dessa vez que eles vão matar e balear alguém no Leblon. Esse dia vai chegar, ou já chegou, enfim. Estava muito tranquilo, porque tinha muita certeza de que eu e as pessoas em volta não estávamos fazendo nada. Nada iria me fazer sentir mal comigo mesmo, com a minha consciência. Eu sou otimista, acho que as histórias tendem a acabar bem.

Eles deram alguma justificativa?

14383929006_bc17f26ca4_oUm policial pegou uma camisa minha, que era rosa-choque por causa desse lance do Pink Bloc e uma camisa extra que eu tinha colocado vinagre por causa das bombas, e colocou pedra portuguesa dentro delas, na minha frente. Na delegacia, ele falou para a delegada: “Essas pessoas estavam jogando estas pedras na nossa viatura”. Foi essa a justificativa. Forjaram o flagrante. Os advogados mostraram os vídeos que eu tinha no celular para a delegada, ela assistiu e chamou os caras do Choque que prenderam a gente. Eles ficaram um tempo lá e quando voltaram, a gente foi liberado, sem ter que pagar fiança. Os vídeos mostravam que não tinha acontecido nada.

Nada iria me fazer sentir mal comigo mesmo, com a minha consciência. Eu sou otimista, acho que as histórias tendem a acabar bem

As manifestações de junho de 2013 tiveram como desencadeador o aumento de 20 centavos na tarifa dos ônibus. O povo protestou e o preço não subiu. Porém, pouco tempo depois, o aumento foi de 25 centavos. Onde estão aquelas pessoas que estavam nas ruas?

O clima está muito tenso por causa da Copa. Muita coisa não foi feita. Tem a Aldeia Maracanã, que é para as Olimpíadas, tem estádios que não foram terminados, a própria questão de Lei Anti-terrorismo. Acho que as pessoas que estavam protestando estão tendo que se organizar para isso. Esse lance dos 25 centavos é uma pauta um pouco menor, é importantíssima, mas com essa questão da violência, da morte do cinegrafista (Santiago Andrade, da TV Band), tem muita gente pensando e repensando. A forma como a mídia tratou os caras do rojão foi muito louco. Aquilo foi um acidente. Metade das pessoas que a mídia mostra como vândalos, ou mais da metade, não são. Botaram as caras das pessoas estampadas nas capas dos jornais como culpadas e elas não eram. As pessoas estão se organizando para lidar com tudo isso, mais do que os 25 centavos.

TV e internet

Seu vídeo, corrigindo o William Bonner foi censurado. Você esperava que a TV Globo fosse tentar tirar seu vídeo do ar?

Cogitei a possibilidade, mas depois pensei que era meio megalomaníaco achar que eles fariam isso. Eu fiz um remix, aquele vídeo não é deles. Uso o vídeo deles na minha obra. A lei de direitos autorais no Brasil é muito defasada e acredito no conceito de desobediência civil. Não concordo e vou fazer a crítica com esse vídeo, vou publicar e republicar. É liberdade de expressão. Foi como consegui expressar a minha indignação. Na hora em que vi a censura, eu tive dois segundos para pensar “que merda” e, no terceiro, eu me liguei: “Eles são muito burros. Eu estou falando de censura dentro do vídeo e eles censuram o vídeo”. Subi o arquivo novamente, botei o link para download e falei para as pessoas repostarem.

Na TV, temos a Rachel Sheherazade. No Congresso, o Bolsonaro e o Marco Feliciano. Você acha que está havendo uma onda de recrudescimento do conservadorismo?

Com certeza. É estúpido achar que vamos acabar com o racista, o homofóbico, o fascista. Até porque, o único jeito de acabar é por uma forma tão violenta que a gente se tornaria eles. O que precisamos é ter as regras e as leis para limitar o poder dessas pessoas de arruinar vidas. O que a Rachel Sheherazade faz na televisão vai além da liberdade de expressão. Ela incita crimes. Algo precisa ser feito. O Jair Bolsonaro é um louco que quer holofote. Não dá pra debater com um cara desses. Não dá para admitir que ele seja deputado federal. Quanto mais alto a gente for voar, mais alto eles vão tentar gritar.

Muitas pessoas pensam a internet como um ambiente democrático. Você percebe a influência dos grandes grupos de mídia também na web?

Eles têm muito poder. Poder político, poder na Justiça, poder financeiro, e se estende na internet. Eles são que nem uns polvos. Eles estão entrando na internet com tudo, para fazer do jeito deles. Óbvio que não vão conseguir, como, por exemplo, as grandes gravadoras quiseram proibir o MP3. A cada tentativa de proibição, mais eles disseminaram. Anos depois, eles falaram: vamos vender MP3 oficialmente no iTunes. Eu cresci baixando MP3 de graça, me desacostumei a pagar. Eles têm dinheiro, eles têm alcance. Acho que as pessoas são inteligentes e estão tomando mais conhecimento de muita coisa. Elas vão saber escolher. Elas vão ver que existem outras opções de bom entretenimento, boa informação. Elas estão percebendo cada vez mais e vão perceber cada vez mais. É devagar, mas a gente caminha pra isso.

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