SER Gabriela

A jovem dá aula para pessoas carentes, grava áudio para livros falados e criou um projeto que ajuda interessados em trabalho voluntário

Por Débora Diettrich e Isabella Zonta

Às sete horas, o despertador toca. Relutante, ela abre os olhos e se arrasta para o banheiro. Veste calça jeans, blusa e sapatilha, seu uniforme do cotidiano, e corre para chegar ao centro do Rio por volta das 8h30. Sua primeira parada do dia é no voluntariado: gravar áudio de livros para cegos e deficientes visuais (“existe uma diferença”, faz questão de frisar).

Apesar da pouca idade, apenas 18 anos, Gabriela Guimarães leva uma vida que não é comum aos jovens brasileiros. Estudante de jornalismo na Puc e de História na UFF, trancou ambas as faculdades para cuidar de quem um dia cuidou dela. Dona Rê Fernandes, avó de Gabriela, sofre de câncer de ovário há dois anos.

“Gabi traz dentro de si uma poderosa criança, capaz de criar, criticar e enfrentar crises com o mesmo frescor e prontidão da infância. Sempre investigando um pouco de tudo ao seu redor, a curiosidade é um dos seus poderosos motores que só perde para sua imensa capacidade de compreender e amar as pessoas com aquele amor universal que move montanhas em busca de um projeto que possa fazer a diferença”, declara dona Rê.

Na Audioteca Sal e Luz, Gabriela se concentra para a gravação de hoje: A Colônia Penal, livro de Franz Kafka. O trabalho do qual faz parte produz e empresta livros falados (audiolivros) gratuitamente para todo o Brasil. A instituição filantrópica conta com cerca de 2.700 títulos, entre literatura e didáticos, em seu acervo.

Depois de passar a manhã rodeada pelo simbolismo de Kafka, é hora de encarar uma atividade mais burocrática. Gabriela novamente corre para não se atrasar. Ela deve chegar às 11h no escritório, em Ipanema. A função agora é traduzir, pesquisar estatísticas e analisar o nível educacional do Ensino Médio de escolas brasileiras. A jovem trabalha em uma empresa de duas americanas que prestam consultoria para estudantes interessados em fazer curso superior nos Estados Unidos.

Já é final de tarde, mas o dia está longe de terminar. Às 17h, Gabriela sai do escritório e pega uma van com destino a Rocinha. O cansaço já é forte, mas ela não desanima. A terceira jornada do dia é como professora na Escola Ibi. O projeto tem o intuito de levar educação para diversos lugares de forma itinerante, já que ainda não tem uma sede fixa. Eles oferecem aulas de educação ambiental, alfabetização, inglês, filosofia, educação política, reforço escolar. O público assistido pela Escola Ibi é amplo, vai de crianças de três anos até idosos de 75. “Não esperamos resultados nas nossas ações. Todo o dia que caminhamos vemos o resultado no rosto dos participantes do projeto”, declaram os organizadores da instituição.

O primeiro compromisso de Gabriela na Rocinha é com as crianças. Às 18h o quadro já está riscado com a explicação do verbo to be. A aula de inglês segue por uma hora, até a “troca de guarda”, quando entram os novos alunos, todos adultos. Os presentes estão aptos a doar um pouco de si e a aprender com a vivência do outro, em uma verdadeira troca de conhecimento e parceria.

Gabriela só termina a função de professora tarde da noite. Ela sai da comunidade em São Conrado rumo a sua casa, em Botafogo. Mas se engana quem pensa que o dia acabou por aí.

Nada de lar doce lar. Agora é hora de mergulhar em seu principal projeto.

SER Voluntário é uma iniciativa de um grupo de jovens, idealizado por Gabriela, que depois de muito pensar e se queixar dos problemas do mundo, resolveu arregaçar as mangas e fazer algo a respeito.

A ideia surgiu em 2011, foi se tornando realidade em 2012 e finalmente inaugurada em agosto deste ano. O objetivo é simples: facilitar o intercâmbio entre voluntários e instituições, ampliando o acesso que um tem ao outro.

Desde o início o projeto SER Voluntário foi pensado como uma maneira de facilitar um processo desnecessariamente complicado. Para isso, Gabriela teve a ideia de estabelecer uma plataforma online de comunicação, que reduziu a quase zero o custo do projeto. Formulários de inscrição online, site com informações das instituições parceiras e entrevistas por Skype são partes do processo seletivo.

Apesar de a ideia inicial ter sido voltada ao público jovem, o SER Voluntário hoje abrange qualquer interessado. Eles notaram que a vontade de se voluntariar independe da idade (atualmente o projeto conta com voluntários aposentados). No entanto, em período de inscrições, o projeto visita escolas e conversa sobre esse tipo de doação com alunos do nono ao terceiro ano do Ensino Médio. O SER Voluntário já foi aos colégios Santo Agostinho, São Vicente de Paulo e Teresiano.

O Projeto está fundamentado na crença de que as melhores experiências de voluntariado são resultado de um misto de compromisso, interesse e identificação. A entrevista online, primeira parte da seleção, é essencial no processo justamente por mostrar os interesses que os voluntários têm e exemplificar o tipo de atividade que gostariam de desenvolver.

Depois dessa etapa, os voluntários são selecionados para trabalharem em projetos que mais se adéquam. Reviver – Grupo de apoio a Criança e ao Adolescente, Saúde Criança Zona Sul, Morro da Alegria, Casa de Betânia, Obra de Berço e ASIA são algumas das instituições parceiras do SER Voluntário.

Para Gabriela, o projeto é uma forma de quebrar estereótipos, como o de que trabalho voluntário é brincar com crianças carentes de dois anos. Ele ajuda também a potencializar o impacto que o voluntariado pode ter tanto na vida de quem faz quanto na vida de quem “recebe” a ação desse trabalho.

Já são 23h, mas Gabriela está a todo vapor debruçada no computador. Ela checa e-mails e conversa com os outros quatro membros do SV. “Luísa Paulino, Júlia Magalhães, Mariam Topeshashvili e Victoria Mercês são pessoas incríveis que, cada uma a sua maneira, hoje acrescentam muito ao projeto”, explica a jovem. Juntas, elas planejam futuros, ideias e oportunidades interessantes ligados aos voluntários e às instituições parceiras.

A equipe do SER Voluntário não tem vínculo com nenhuma instituição de cunho político, social ou religioso, tão pouco patrocínio. Ela trabalha hoje para que possa se tornar uma ONG em um futuro próximo. E espera também poder ampliar o seu alcance.

“Talvez Gabriela ainda não saiba, mas ela tem o perfil das grandes lideranças capazes de, realmente, transformar o mundo”, afirma dona Rê.

Para Gabriela, as experiências que cada pessoa vive e as situações pelas quais passa faz com ela queira transformar o mundo em um lugar melhor.  Quando se identifica um problema, basta pensar em uma possível solução.

Aos que sonham em começar um projeto voluntário, Gabriela aconselha: “Se você acredita no trabalho que está fazendo, persista. Obstáculos não vão faltar, mas é possível começar algo do zero. Procure pessoas envolvidas em outros projetos, assista palestras, corra atrás e com vontade – o mundo está aí, cheio de oportunidades existentes e a serem criadas, só esperando para serem agarradas”.

Já passa da meia noite. Gabriela adormece em cima do livro de história americana, algo que difere consideravelmente de um travesseiro. O dia foi longo e a noite será curta: O despertador está programado para tocar às 7h, porque hoje ainda é segunda-feira.

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