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Usuários das Redes Sociais reproduzem um padrão de exposição da felicidade, no qual o “estar bem” parece um imperativo social

Por Bianca Alcaraz e Paula Rodrigues

“Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.” 

Fernando Pessoa

A exposição da felicidade parece imperar sobre os relacionamentos sociais. (Foto: Paula Rodrigues)

A exposição da felicidade parece imperar sobre os relacionamentos sociais. (Foto: Paula Rodrigues)

Ser ou parecer feliz. Esta é uma questão que norteia os relacionamentos sociais, desde o aparecimento da internet. Diante de uma sociedade que preza pela imagem, os usuários das Redes Sociais estão mais preocupados em divulgar um estado de felicidade constante do que aproveitar cada momento da vida. Agora, os conteúdos produzidos são consumidos por muitos, por gente que não necessariamente faz parte do cotidiano do usuário, mas fica sabendo, de longe, do seu sucesso. O que parece é que não há mais espaço para a tristeza, o importante é mostrar aos outros um estado de adaptação a um momento no qual “estar bem” não é apenas um caminho a tentar se seguir, e sim um imperativo social.
O homem sempre esteve em busca de ser feliz. Segundo a psicóloga Dra. Ana Claudia Monteiro, as Redes Sociais preconizam um modelo de felicidade. “Estes dispositivos foram criados para ser um lugar onde você conhece pessoas e também pode ser conhecido por elas. E, pressupõe-se que ninguém quer conhecer pessoas ‘infelizes’, ou mesmo saber das derrotas alheias. Joga-se o jogo”, afirma.
Questionadas sobre o uso das Redes Sociais, 50 pessoas responderam, no período de uma semana, anonimamente, a uma enquete feita pelo O Casarão a respeito da exposição da felicidade. Todas afirmaram perceber que existe uma tendência a esse tipo de comportamento nas Redes Sociais, e 60% afirmaram, ainda, reproduzi-lo.

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E a justificativa utilizada é a mesma exposta pela psicóloga, ou seja, ninguém quer demonstrar fraqueza diante do público ao qual está conectado. Muitos deles alegaram, inclusive, ser mais importante “o que os outros pensam de nós do que aquilo que realmente sentimos”. É a questão do status: os usuários almejam alcançar a popularidade através das Redes Sociais, onde podem assumir qualquer identidade, seja ela ficcional ou não, e dessa maneira se aproximar de outros usuários.
No entanto, não existe um uso predeterminado. A psicóloga diz que “não se trata de compreender as Redes Sociais como ‘coisas em si’, que possuem uma finalidade dada. Mesmo que esta finalidade exista, o próprio uso modifica a finalidade ‘original'”. Os seres humanos que, segundo Ana Claudia, estão em constante processo de construção tendem a ser suscetíveis ao que os cerca. Quanto mais felicidade vêem nas Redes Sociais, mas tendem a reproduzir tal padrão. “O uso produz o que se faz e não o contrario. Em outras palavras, não acredito numa tendência a priori de comportamento, mas numa construção coletiva de espaços que incentivam este comportamento pela sua exaustiva repetição. Como não somos seres fechados e determinados por nós mesmos, somos suscetíveis ao que nos cerca”, completa .

“Somos suscetíveis ao que nos cerca”

A supervalorização da imagem não é algo exclusivo das Redes Sociais, ela também se reflete em outros meios de comunicação. As pessoas estão habituadas à estética difundida pela mídia da espetacularização do Eu, da imagem em detrimento do texto. A publicidade é o meio em que isso ocorre constantemente. O conteúdo está sempre voltado para a ideia de que existe um ideal de felicidade que o consumidor ainda pode conquistar. É o caso da campanha veiculada pela Coca-Cola, que associa a marca à busca pela felicidade. A propaganda utiliza, para convencer o público, uma música em que a letra convida a abrir a felicidade e compartilhá-la. “Vem curtir comigo, o dia já vem. Abra a felicidade você também. Vamos sentir algo novo!” Nesta campanha publicitária deixa-se de lado as características do próprio produto para exaltar um padrão de comportamento, que coloca como imperativo o “estar bem”.

Só uma janela me separa de você
Felicidade: um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior. Na tentativa de compreender as tantas visões sobre o que é felicidade, o documentário “Eu maior“, produzido pela Associação Dobem, traz a opinião de personalidades distintas acerca desse estado repleto de incertezas, que se caracteriza por uma eterna busca. É como se a felicidade fosse um sentimento momentâneo e o ser humano estivesse em constante procura por sua plenitude.
A internet talvez sejam um meio de escape dessa consciência de que não há um estado pleno. Os próprios usuários entrevistados na pesquisa realizada pelo O Casarão afirmam que “ninguém é feliz o tempo todo”. Dentre eles, 46% acreditam que a exposição constante da felicidade nas Redes Sociais não reflete a realidade. TheCharlieInAllOfUs

A tendência à exposição da felicidade pode ser observada ainda através da ferramenta de monitoramento de Redes Socias, Topsy, onde, no intervalo de uma hora, o uso da palavra “happy” (feliz, em inglês), aparece 110 mil vezes, enquanto no mesmo espaço de tempo a palavra “sad” (triste, em inglês), foi utilizada apenas 31 mil vezes. Como uma ferramenta que está sujeita ao uso que se faz dela, seja positivo ou negativo, as Redes Sociais não atuam de forma independente. Nesse sentido, o mundo virtual pode ser visto como um proliferador do isolamento social, porque a partir dele as pessoas abandonam sua identidade e seu contato pessoal com o resto do mundo e passam a viver em um universo ficcional. “Acredito que o olho no olho foi perdido por causa destas novas tecnologias. Por outro lado, as Redes Sociais aproximaram as pessoas que, de outra maneira, não poderiam se encontrar com tanta facilidade e rapidez. Portanto, não se trata de defender ou criticar as Redes Sociais, mas de saber que tudo o que habita nosso mundo possui um posicionamento e que, como sujeitos, somos responsáveis pelo uso que fazemos dos dispositivos. Aposto numa política de proliferação de formas e usos das Redes Sociais que escapem do uso comum e que produzam novas formas de se relacionar com as tecnologias”, conclui a psicóloga.

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