O mar de leite de José Saramago

saramago

Por Fernanda Costantino

Um ganhador de prêmio Nobel de Literatura não recebe esse título a toa. Foi para comprovar essa afirmação que li, pela primeira vez e – confesso – já um pouco atrasada, José Saramago. Comecei pelo mais famoso e ganhador do prêmio em 1998, para já matar dois coelhos com uma só cajadada. “Ensaio sobre a Cegueira” foi lançado em 1995, adaptado ao cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles em 2008, ganhador ainda do Prêmio Camões também em 1995, traduzido para mais de 42 idiomas e tema de um número incalculável de resenhas. Essa é mais uma.

O primeiro soco no estômago, porque o livro é, da melhor forma possível, uma sucessão de socos no estômago, vem na forma da escrita. Saramago nos deixa sem ar e um pouco perdidos, no início. Sem parágrafos, sem vírgulas, sem travessões e sem aspas, somos bombardeados por narrações, falas e pensamentos que chegam sem aviso prévio. Cinco páginas e você já se acostuma e passa a viver no ritmo. O modo como ele escreve parece nos fazer entrar nos pensamentos dos personagens, como pequenas moscas sobrevoando aquela cidade, que não recebe nome nem referência temporal, mas que está prestes a ser o cenário de uma grande tragédia.

O mínimo que se ouviu falar sobre o livro, já se descobre que a história é simples e apenas isso: em uma cidade, todos os habitantes ficam, de uma hora para outra e sem um porquê aparente, cegos. Não é uma cegueira comum, na qual se vê tudo preto; esses novos cegos passam a ver tudo branco, como “um mar de leite”. Apenas uma personagem, a mulher do médico (que também não recebe um nome, assim como todos os outros), continua a enxergar. 

Toda a história é feita de antagonismos que se misturam, como Saramago mesmo logo avisa, em uma passagem: “a alegria e a tristeza não são como água e óleo, elas coexistem”.

A partir das primeiras crises de cegueira, o governo tenta realizar quarentenas com os que vão ficando cegos em uma tentativa de conter a epidemia. O livro acompanha um grupo formado pela mulher do médico, o médico, a mulher de óculos escuros, o menino que perdeu a mãe, o velho da venda preta, o primeiro cego e a mulher do primeiro cego. Sem nomes, eles são indicados da forma como narrei e vivem em um manicômio adaptado para receber os novos cegos até que se encontre uma solução.

A solução, é claro, não vem, e é assim que começa a sucessão de socos no estômago. Não é um livro piedoso. Sem rodeios, de forma seca e objetiva, Saramago narra através desses cegos (e da única que ainda enxerga) as grandes porcarias da vida e do ser humano. Da forma mais básica, como cegos que desistem de tentar achar o banheiro e defecam no meio dos quartos e corredores; às merdas mais profundas, como estrupo, machismo, ganância e poder.

No manicômio, um grupo de uma das alas se aproveita da caótica situação e passa a regular o fornecimento de comida no local. Em troca, pedem joias, dinheiro e tudo o que os outros tiverem de valor para o pagamento. Um ato restrito ao simples abuso de poder, já que não podem fazer muita coisa com os objetos furtados. Logo percebem que o sistema entra em escassez e então passam a pedir em troca “favores” sexuais às mulheres presentes pela comida.

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O livro se divide em dois grandes atos, o primeiro dentro do manicômio e o segundo quando toda a cidade é tomada pela cegueira e o grupo sai para as ruas. A mulher do médico, única que ainda enxerga, é um dos pontos mais críticos da história. Uma mulher, em um cenário machista, é de longe a mais forte. Feminismo embutido ou não, ela traz ainda outros questionamentos. De tudo que vê e tudo que faz, em certo ponto a própria personagem se questiona se não seríamos todos já cegos, mesmo enxergando? Um mundo tomado por uma cegueira branca não se difere muito de um mundo tomado por uma cegueira “conveniente”.

Uma das partes mais tocantes do romance são os questionamentos sobre o destino e como ele traça o nosso papel na sociedade e na vida dos outros. Em meio ao caos, José Saramago traz frases como: “há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.

E talvez Saramago esteja certo, talvez o destino seja mesmo um dos grandes sacanas da vida. Duas semanas depois de ter terminado o livro, eu vagava pelos canais de tv a cabo procurando alguma salvação para meu domingo à noite. Foi quando me deparei, no Canal Brasil, com o documentário “José e Pilar”, que conta os últimos anos de vida de José Saramago ao lado de sua mulher, a jornalista espanhola Pilar del Rio. 

Descobri coisas incríveis, como o fato de Saramago ter começado a escrever apenas com 60 anos, como seu ateísmo é parecido com minhas próprias crenças e dúvidas sobre Deus, e como a sua visão sobre a vida é, na verdade, bem simples. E, se o destino não lhe ajudar, aqui estou, colocando no seu caminho um grande escritor e um grande documentário. Encare isso como um sinal, leia Saramago e fique cheio de desdobramentos e questões na cabeça, como um grande livro e um grande escritor são capazes de fazer.

Uma resposta para “O mar de leite de José Saramago

  1. Adorei!
    Melhor parte: “De tudo que vê e tudo que faz, em certo ponto a própria personagem se questiona se não seríamos todos já cegos, mesmo enxergando? Um mundo tomado por uma cegueira branca não se difere muito de um mundo tomado por uma cegueira “conveniente”.”

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